No passado dia 22 de Janeiro, a RTP 2 dedicou a edição do seu programa “Sociedade Civil” ao tema “Cristóvão Colombo era Português?”.
Apresentado por Fernanda Freitas, teve como convidados o Ten-Cor Brandão Ferreira, o Prof. José Manuel Garcia e o escritor José Rodrigues dos Santos.
O trabalho jornalístico de Tânia Madeira incluiu ainda extractos do documentário “Enigma Colombo” (apresentado pela primeira vez no canal Discovery em Outubro de 2005 e depois repetido na RTP 2), reportagens na Vila de Cuba e entrevistas com Mascarenhas Barreto - autor de livros defendendo a nacionalidade portuguesa de CC, Prof. José Hermano Saraiva – historiador, Carlos Calado – do Núcleo de Amigos da Cuba e Drª Isabel Pires de Lima – Ministra da Cultura.
O vídeo do debate está disponível na página Internet do programa Sociedade Civil (referente ao dia 22 de Outubro de 2008)
http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?tvprog=20544 (Também no fim desta página pode-se ver alguns segementos no You Tube)
Tendo sido já amplamente divulgados e desenvolvidos neste blog os vários aspectos que apontam para a nacionalidade portuguesa do Almirante Cristóvão Colon, vamos apenas destacar neste artigo os aspectos mais marcantes das intervenções do Prof. José Hermano Saraiva (entrevista gravada) e do Prof. José Manuel Garcia (debate em directo).
O Prof. José Hermano Saraiva afirmou peremptoriamente que Colombo era Italiano, Genovês, filho de um cardador de lãs, e que há muita documentação sobre isso. Os argumentos daqueles que defendem uma possível origem portuguesa nem chegam a ser argumentos, pois não há nenhum Historiador Profissional que ponha em dúvida que Colombo era genovês.
Quem defende a origem portuguesa são meros curiosos portugueses, com argumentos de pura fantasia…
Para explicar porque é que o Almirante fazia mistério em torno das suas origens, nunca as tendo mencionado, o Prof. José Hermano Saraiva afirmou que Colombo não gostava de falar do seu passado, e que para isso só há uma explicação lógica: é que Colombo era de raça judaica e os judeus já eram perseguidos, precisamente pelos Reis Católicos. Se soubessem que ele era judeu nunca o nomeariam Almirante….
Sobre o argumento do Almirante não saber italiano, o prof. José Hermano Saraiva disse que Colombo nunca escreveu uma linha em português, ele não sabia português. Que Português seria este que não sabia português? Logo afirmando novamente que nunca ninguém pôs a hipótese do Almirante ser Português senão alguns curiosos, amadores, fantasistas…
Ele diz claramente, um filho dele escreveu sobre a vida dele.
A propósito do casamento de CC com Filipa Moniz Perestrelo, e do argumento que o navegador deveria ser um nobre para poder casar com Filipa Perestrelo, o Prof. José Hermano Saraiva afirmou que Colombo não era de alta nobreza e que um nobre nunca ia descobrir terras, isso era para os aventureiros, povo, que eram nobilitados depois de prestar serviços à Coroa. Um nobre não se metia num barco, um local duro, onde se passava fome.
Para o Prof. José Manuel Garcia, Colombo era Genovês. Não consegue visualizar nenhum documento, nenhuma fonte que indique que pudesse ter outra nacionalidade
"Não tenho dúvidas. No dia 25 de Agosto de 1479, Colombo (não faço finca-pé no nome, pois não havia uma forma única de escrever e o próprio cronista António Galvão o escreveu no mesmo documento com três grafias diferentes). O único português que conheceu Colombo, ao vivo foi Ruy de Pina, o grande cronista Ruy de Pina, que escreveu em 1504: Colonbo ytaliano. Depois o cronista seguinte, o grande historiador João de Barros, chamou-lhe Colon e disse que era genovês.
Pois em 25 de Agosto de 1479, Colombo apresenta-se num cartório notarial em Génova onde declara que tem 27 anos e vai partir no dia seguinte para Lisboa, por causa de um negócio de açúcar. Naquela época havia italianos, que tinham negócios de açúcar na Madeira. Ele trabalhava para a firma de Paolo di Negro. Este documento é verdadeiro, não apresenta quaisquer dúvidas" (Nota –
Documento Asseretto)
Sobre a origem, o Prof. José Manuel Garcia afirmou que a origem seria humilde, embora isso possa ser discutível.
Sobre a possibilidade de alguém de baixa classe poder chegar até à Corte, o Prof. José Manuel Garcia referiu outros estrangeiros como o alemão Behaim e o flamengo Dulmo, admitindo que não seriam de tão baixa classe quanto Colombo, o qual seria
caso único. Os próprios Perestrelos eram de origem italiana. Ascenderam à nobreza mas não à nobreza mais alta.
"Colombo aparece cá em Portugal, por volta de 1476, não se sabe bem em que circunstancias, não se sabe se foi numa batalha naval.
Chegou cá numa má altura, não havia descobrimentos, porque Portugal estava em guerra. Portugal atacava os espanhóis que queriam ir à Guiné. Colombo vai-se dedicar a negócios e casa com a Filipa Perestrelo.
Colombo apresentou a ideia ao Rei D. João II, mas não foi Colombo que a descobriu. Foi Toscanelli, outro italiano que, em 1474 apresentou a teoria ao Rei D. Afonso V, mas este não se interessava por isso e quem se interessou foi o seu filho, o príncipe D. João (Nota: depois Rei D. João II).
D. João perguntou aos seus sábios qual seria o melhor caminho para chegar à Índia, e os sábios disseram que era pelo Oriente, contornando a África.
Depois, não se sabe como, Colombo descobriu a teoria de Toscanelli e veio apresentá-la a D. João II, que a recusou, e então ele foi oferecê-la aos Reis Católicos. Sabemos de Toscanelli porque Colombo copiou a carta de Toscanelli."
As provas que permitem estabelecer a ligação entre o genovês Colombo e o Almirante Colon são o
documento Asseretto, o
testamento de 1498 e a crónica de Ruy de Pina.
Colocado perante a divergência entre a data de nascimento de Colombo deduzida a partir do documento Asseretto e dois escritos do próprio Almirante, o Prof. José Manuel Garcia disse que quando o Almirante se queixou ao Rei D. Fernando, o Católico, que tinha estado 14 anos a tentar convencer o Rei português (Nota: o que pressupunha que estava em Portugal em 1470), poderia estar a mentir, porque isso não bate certo com coisa nenhuma…
"Tenho por bom o documento Asseretto, que é da época e não é viciado." (Nota: curiosamente não tem selo notarial, não foi assinado, não há testemunhas, não se identifica o declarante com os nomes dos pais, etc, etc)
"Colombo, quando veio para Portugal tinha pouca formação. Não sabia escrever italiano. Começou a aprender cá, português e castelhano. Em Castela era conhecido por Português porque tinha vivido cá.
Ele escrevia castelhano com muitas palavras portuguesas, mas não usou o infinito flexionado, que só os portugueses usam."
Ainda sobre a ascensão social de Colombo o prof. José Manuel Garcia afirmou que também ascendeu socialmente em Portugal um seu concorrente que esteve quase para descobrir a América: Martin Behaim, e que Colombo ascendeu porque descobriu a América, senão não tinha ascendido.
Confrontado com vários dos problemas encontrados no testamento de 1498, o prof. José Manuel Garcia disse que, embora continuasse a achar que era verdadeiro, dava de barato o testamento, pois não tinha aprofundado o seu estudo. O documento Asseretto era então mais seguro.
Confrontado então com os problemas do documento Asseretto, o prof. José Manuel Garcia agarrou-se à crónica de Ruy de Pina, dizendo que havia mais cronistas… que copiaram Ruy de Pina, limitaram-se a repetir o que ele escreveu, segundo os contra-argumentos.
Mas Ruy de Pina não escreveria o que fosse mais conveniente para o seu Rei de Portugal?
"Sem dúvida que a história nunca acaba e está em permanente reconstrução. Convém, no entanto, não pôr tudo em causa senão ninguém se entende. Nada obsta a que Colombo seja italiano. Seria um italiano de origem humilde que ascendeu socialmente. Por exemplo Diogo Cão só ascendeu depois de realizar os seus feitos, Bartolomeu Dias nunca passou de simples escudeiro, ao contrário Vasco da Gama era já um fidalgo, filho do Alcaide de Sines, assim como Pedro Álvares Cabral, que era filho do Alcaide de Belmonte."
Nota final:
O Prof. José Manuel Garcia afirmou que Colombo tinha chegado a Portugal por volta de 1476, não se sabe bem em que circunstâncias.
Eu creio que se sabe muito bem em que circunstâncias: foi num naufrágio. O naufrágio do Colombo genovês. Um eterno náufrago.
27 Jan 2008
Carlos Calado