(continuação)
Parte 3 APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO
PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)
(1.3. O seu estranho idioma)
pág. 21 - O ‘idioma pessoal’ de Colombo era uma mistura, razoavelmente desinibida e prática, de vários elementos (empregando frequentemente uma espécie de denominador comum entre as várias gramáticas e ortografias dos idiomas em questão), mas, segundo o especialista espanhol neste problema, Menendez-Pidal, nos diz e tal como Consuelo Varela e outros confirmaram recentemente, o seu principal conteúdo era claramente Português.
De facto, Colombo não falava nem escrevia correctamente nenhum idioma em concreto.
pág. 22 – Talvez não seja tão estranho que um italiano que deixou o seu país quando era ainda um jovem não fosse capaz de escrever adequadamente na sua língua natal. Dado que o dialecto Genovês não tinha forma escrita, é bastante improvável que ele pudesse ter aprendido a escrevê-lo; já quanto ao Italiano literário, segundo Menendez-Pidal, é improvável que ele pudesse fazer mais do que apenas ler, e mesmo isso, faria mal. Embora ele tivesse sido influenciado pelas suas origens burguesas italianas, a sua principal educação teve lugar durante o longo período que viveu em Portugal.
+ Por estas afirmações do Autor podemos então concluir que não aprendeu a escrever o dialecto genovês (porque não tinha forma escrita), nem o Italiano literário; ou seja, o jovem Cristoforo Colombo quase não aprendeu a escrever (Marianne Mahn-Lot, em “Portrait historique de Christophe Colomb” escreve que ele teria aprendido uns rudimentos de latim «probablement une teinture de latin – connaissance indispensable aux cartographes, qui transcrivaient dês légendes explicatives en cette langue») .
Mesmo aceitando-se que chegou então a Portugal com 24 ou 25 anos, como afirma o Autor, teve aqui a sua principal fase de educação durante o “longo período” de 9/10 anos.
Génio dos génios, o pouco letrado, quase analfabeto Cristoforo Colombo terá frequentado alguma espécie de ‘escola primária para adultos’ para aprender a escrever?
E para não perder tempo, fê-lo simultaneamente com os estudos mais avançados em Cosmografia, Geografia, Latim, Hebraico, Navegação, Teologia, etc. tendo ainda muito tempo de sobra para participar nas viagens portuguesas de descobrimentos e exploração que se prolongavam, naturalmente, por vários meses; nesse período também casou, provavelmente em 1479 e foi viver uns tempos na Madeira e em Porto Santo…
O leitor acha que isto é mesmo verosímil?
pág. 22 – A verdade, como afirmei, é que as principais formas encontradas na sua escrita mantêm-se Portuguesas. O que é ainda mais estranho é que mesmo na sua correspondência enviada ao Embaixador de Génova, o italiano Frei Gaspar Gorrício, ao seu filho Diogo e ao seu irmão Bartolomeu, ele sempre utilizou aquela sua linguagem híbrida em lugar de o fazer em Italiano. Já não saberia como escrever em Italiano? Nunca aprendeu a escrevê-lo?
+ Que CC escrevesse naquela sua linguagem fortemente Portuguesa ao seu filho Diogo poderia compreender-se, mas mais lógico seria se o fizesse em Castelhano, já que Diogo foi para Castela quando tinha apenas 4 ou 5 anos de idade. Para o seu irmão Bartolomeu é menos compreensível que não o fizesse em Italiano; mas para o Embaixador genovês é mais do que estranho que CC escrevesse na sua linguagem fortemente Portuguesa.
Mas o Autor não retirou quaisquer conclusões desses factos muito estranhos…
Nota: Corrija-se o nome do Embaixador de Génova indicado pelo Autor, que não era Frei Gaspar Gorricio, mas sim Niccolo Oderigo. CC também enviou cartas a Gaspar Gorricio, e também não as escreveu em Italiano.
pág. 22 – Porém, vale a pena salientar, em relação com as origens de Colombo, que o facto de se encontrarem, por vezes, algumas poucas formas Italianas e Genovesas nos seus escritos, seria dificilmente explicável se Colombo nunca tivesse tido nenhum contacto com a Ligúria.
+ Sobre a existência de meia dúzia de palavras com laivos de Italiano, alinhavadas numa tentativa de frase sem qualquer nexo, já o Autor tira conclusões: «Colombo teve que ter algum contacto com a Ligúria.»
E porque não? CC não casou numa família com origens italianas, tal como o Autor fez questão de referir ao afirmar (pág. 21) que os círculos de imigrantes italianos (onde inclui os Perestrelos) naturalmente falavam na língua do país de acolhimento (Portugal)? Não navegou pelo Mediterrâneo? Seria necessário mais do que esses contactos para aprender meia dúzia de palavras italianas?
(1.6. O que de facto se conhece sobre a sua identidade)
pág. 31 – A controvérsia pode bem continuar até ao insuportável, mas está fora de questão que, qualquer que seja a diversidade de opiniões noutros assuntos, o facto de Colombo ter nascido em Génova foi aceite pela maioria dos historiadores de todo o mundo que tenham lidado série e profundamente com a questão colombina – tais como Harisse, Vignaud, Morison, Taviani, Ballesteros y Beretta, Manzano y Manzano, Rumeo de Armas, e muitos outros académicos mais recentes.
+ A simples constatação do que o Autor afirma, «o facto de Colombo ter nascido em Génova foi aceite pela maioria dos historiadores …», já demonstra duas incongruências:
primeira – um facto que tem de ser aceite por uma maioria de historiadores mais se aproxima duma hipótese forçada, por falta ou omissão de alternativas suficientemente fortes, do que de uma evidência inquestionável;
segunda – na verdade, o facto de tantos historiadores se terem preocupado em questionar o local de nascimento de CC e o Autor os invocar aqui, indica que não faz sentido o que escreveu anteriormente na pág. 19:
«Dado isto, parece-me um pouco desajustado preocuparmo-nos demasiado com o local de nascimento dum homem do séc. XV para lhe atribuirmos uma ‘nacionalidade’»
pág. 31 – O texto mais importante – que efectivamente, por si só, resolve a questão – é o documento de legação dos seus bens e títulos, no qual Colombo nomeou os seus herdeiros e no qual ele claramente afirma que nasceu em Génova. A autenticidade deste documento foi questionada há algum tempo (quando surgiram as teorias ‘espanholas’), mas tais dúvidas não têm justificação possível, dado que existe confirmação num registo régio conservado no Arquivo Oficial de Simancas.
+ Perante as peremptórias afirmações do Autor, defendendo que não há justificação possível para questionar a autenticidade do documento (Testamento ou Morgadio de 1498), porque existe confirmação régia no Arquivo oficial de Espanha, e perante tantos argumentos, muitos deles até mais recentes que podem consultar-se, demonstrando que quer na forma quer no conteúdo, o Documento de 1498 é mais do que duvidoso, só podemos perguntar ao Autor se chegou a ver o Documento, se estudou o teor do seu conteúdo descritivo, e se avaliou o cumprimento de formalismos, enfim, se pode garantir a todos os seus leitores que não há dúvidas absolutamente nenhumas sobre a sua autenticidade. Porque antes disso, ficaremos sempre com a sensação (já confirmada noutros casos) de que está convicto da autenticidade do Documento só porque ‘alguém’ disse que era autêntico.
pág. 31 – Para além disso, em 1502, quando Colombo tinha caído em (relativa) desgraça na Corte castelhana devido ao falhanço do seu plano e ele tinha sido desapossado das suas honras como Vice Rei da Índia, ele escreveu cartas ao Embaixador genovês e ao Banco de S. Jorge de Génova, nas quais ele demonstrou que ser um emigrante originário da Ligúria.
+ Cartas essas que não fazem parte do restrito grupo de documentos classificados como autógrafos ou como tendo sido ditados ao seu escrivão, nada garantindo então a sua autenticidade.
pág. 31 – As afirmações de um número de cronistas, portugueses, espanhóis e genoveses, também devem tomar-se em consideração. Durante a sua estada em Espanha, o seu biógrafo Bartolomé de las Casas (que diz que ele era ‘da nação genovesa’) não foi o único a evidenciar a sua nacionalidade de origem; (…) Similarmente, o cronista oficial de Génova nos finais do séc. XV, António Gallo, escreveu que “Cristoforo e Bartolomeo Colombo, da nação da Ligúria, filhos do povo, assalariados genoveses … alcançaram grande fama pela Europa” (…)
pág. 32 – João de Barros chama-lhe Cristovam Colom, a forma portuguesa pela qual ele era provavelmente mais comummente conhecido em Portugal, mas seguidamente diz que “segundo a opinião geral … ele era genovês de nascimento”
pág. 33 – Mas em Rui de Pina nós encontramos a afirmação clara de que o seu nome era realmente Colombo e que era italiano.
+ Para cada um dos cronistas invocados já foram apresentadas fortes desconfianças sobre o que escreveram, quando, como e porquê.
Veja-se, p. ex. António Gallo, que enalteceu os irmãos Cristoforo e Bartolomeo Colombo, de humildes pais genoveses, os quais alcançaram grande fama pela Europa.
Gallo também escreveu que conhecia bem a família, mas 'esqueceu-se' do terceiro irmão, Giacomo Colombo, talvez porque o irmão do Almirante Colón se chamava Diego e não Giacomo. Além disso atribuiu grande fama, por um descobrimento no qual não participou, ao praticamente anónimo Bartolomeu.
São cronistas assim, nada imparciais, pouco precisos ou baseados noutros anteriores, que o Autor invoca.
Quanto aos cronistas portugueses, João de Barros não afirma ele próprio que CC era genovês, preferindo pôr as palavras na boca de ‘toda a gente’ e Rui de Pina, num já famoso documento, parece ter deixado em branco um espaço para ser preenchido posteriormente, intervalando as palavras demasiado curtas.
Mas o mais surpreendente nesta invocação de vários cronistas, todos eles difundindo a nacionalidade genovesa de Colombo, é a contradição do Autor com as suas afirmações anteriores (pág. 18 / 19) defendendo que sobre aquela época não se pode falar de nacionalidade de alguém atribuindo-lhe o sentido actual, pois ela dependia do soberano a quem se servia.
Temos então aqui um navegador a efectuar descobertas em nome dos Reis de Castela e ao qual ninguém, em momento algum, chamou ou considerou castelhano.
E, para cúmulo, o cronista oficial português, que deveria conhecer a sua forte ligação com Portugal e reconheceu as suas descobertas ao serviço de Castela, atribuiu-lhe uma nacionalidade inexistente: “ytaliano”!
Quem é que andou a enganar quem?
Carlos Calado(continua...)