Parte 4
APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO
PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)
(1.7. Informação fornecida por Rui de Pina e outros cronistas portugueses)
pág. 35 - A autenticidade deste documento pode ser (e tem sido) contestada, mas mesmo se este ou qualquer um dos outros documentos que têm sido questionados tiver que ser abandonado, a verdade é que em conjunto eles constituem uma série que, apesar de não muito numerosa, é certamente suficientemente extensa para obrigar qualquer académico honesto a aceitar que Génova foi o local de nascimento do navegador que mais tarde apareceu em Portugal e daqui passou ao serviço de Castela para realizar a sua famosa viagem.
+ Neste caso, perante a “milagrosa” aparição de um documento que poderia pôr fim às polémicas, mas acabou por ser tão fortemente questionado, o Autor decide considerar a hipótese de ele ter de ser abandonado, mas refere que ainda sobrarão todos os outros. Só que não existe nenhum documento isento de dúvidas e este surgiu como sendo a “tábua de salvação”.
Conclui o Autor que o conjunto de documentos é suficientemente extenso pelo que, mesmo que alguns tenham de ser abandonados, o académico honesto é obrigado a aceitar que Génova foi o local de nascimento do navegador.
É, no mínimo, uma conclusão pouco académica, pois todo o estudioso honesto, perante a ‘obrigação’ de aceitar conclusões forçadas com base numa série de documentos dos quais alguns tenham de ser abandonados por se verificar a sua falsidade, só tem um caminho a seguir: ser mais exigente; não se sujeitar a que lhe ‘imponham’ o veredicto, e começar do zero, perscrutando, ele próprio, minuciosamente todos os documentos.
1.8. A juventude de Colombo e a sua chegada a Portugal
pág. 36 - O futuro sujeito de tanta controvérsia nasceu em 1451 em Génova, provavelmente próximo duma rua chamada ‘Olivella’. Ele era o filho dum humilde tecelão chamado Domenico Colombo e duma mulher chamada Susanna Fontanarossa ou Terrarrossa e foi baptizado de Cristoforo (embora haja quem não aceite que esta criança é o navegador que viveu em Portugal e Castela)
Cristoforo tinha uma irmã e três irmãos, dos quais apenas dois sobreviveram e cujos nomes são os mesmos que os dos irmãos que mais tarde ele chamou para se lhe juntarem.
+ Quando começa a construir a personagem do Colombo genovês, as certezas do Autor transformam-se num “provavelmente”, num dilema e numa afirmação incorrecta:
-nasceu provavelmente próximo duma rua chamada Olivella;
-a sua mãe chamava-se Fontanarrossa ou seria Terrarrossa;
-os nomes dos irmãos genoveses eram os mesmos dos irmãos que se lhe juntaram mais tarde (ao Almirante Colon).
Não sendo sequer importante saber em que rua nasceu Cristoforo, o Autor debate-se com as várias localidades que reclamaram ser o berço do tecelão e com a profusão de documentos incompatíveis entre si.;
Já quanto à mãe de Cristoforo, o Autor enfrenta o dilema da escolha: seria a Susanna Fontanarrossa casada com o Domenico Colombo ou seria a Terrarrossa, conveniente para explicar um escrito atribuído a Bartolomeu onde surge a palavra Terrarrubra?
(Nota: recentemente em 2006, vários anos depois da publicação deste livro em 1992, foram efectuados pela Universidade de Granada, exames antropomórficos sobre as ossadas de Diego Colon, os quais concluíram, cientificamente, que este morreu com uma idade não compatível com a idade que teria o Giacomo Colombo genovês).
pág. 36 – Tal como o seu irmão Bartolomeo, o jovem Cristoforo pode logo ter começado a trabalhar a bordo de embarcações em Savona ou mesmo em Génova, quando tinha apenas dezanove anos de idade.
Os filhos estão também registados na documentação, envolvidos em actividades similares às de seu pai, mas o cronista genovês António Gallo viria mais tarde a escrever que os jovens Colombo combinavam a actividade de tecelão com actividades marítimas e comerciais.
+ É uma hipótese falaciosa, pois o Autor afirma que o jovem Cristoforo pode ter feito o mesmo que o irmão Bartolomeo, mas não existe qualquer prova de que Bartolomeo o tivesse feito em Génova ou Savona. O cronista genovês António Gallo, escreveu que os jovens Colombo combinavam a actividade de tecelão com actividades marítimas e comerciais, pretendendo fundir estes personagens com os irmãos Colon, mas as suas palavras (ou pretensas palavras, pois trata-se de duas folhas soltas insertas numa colectânea publicada já no séc. XVIII) mostram que isso não passa de uma tentativa forçada:
«Os irmãos Cristoforo e Bartolomeu Colombo, lígures de nação, nascidos em Génova com origem plebeia, e que viviam do comércio da lã, em que o pai foi tecelão e os filhos, num tempo, cardadores, alcançaram em toda a Europa, nos tempos a que chegámos, uma grande celebridade pela sua coragem e por um descobrimento que será um marco na história da humanidade».
Ora Bartolomeu Colon não participou no descobrimento, e só foi juntar-se ao irmão Cristóvão Colon, na ilha Hispaniola, quase 2 anos depois da descoberta. Já o Almirante lá estava pela segunda vez.
pág. 37 – A primeira viagem que se conhece ao jovem Colombo foi feita em 1474-1475, numa expedição comercial no Mediterrâneo à ilha grega de Quios, onde os genoveses tinham interesses económicos. Em 1475-1476 Colombo, agora com 24-25 anos, provavelmente navegou numa frota de guerra genovesa ao serviço de Renato de Anjou, no Mediterrâneo Ocidental (…) No mesmo período, sabe-se de Colombo num esquadrão genovês que foi atacado ao largo do cabo de S.Vicente (Portugal) pelo corsário Guillaume de Caseneuve, conhecido como ‘Colombo-o-Velho’. O seu barco foi afundado e ele teria chegado a Portugal em 1476, provavelmente a nado.
+ O Autor escolhe a data de 1474/75 para fixar uma expedição comercial genovesa à ilha de Quios, na qual navegaria Colombo, sem qualquer prova de que teria ocorrido nessa data. O Almirante Colon escreveu que tinha viajado a Quios, mas não referiu a data nem qualquer expedição genovesa.
Da mesma forma, Colon escreveu que tinha colaborado com Renato de Anjou e o Autor conclui que ‘provavelmente’ navegou numa frota de guerra genovesa ao serviço de Renato de Anjou em 1475/76, para depois referir que, pela mesma altura, consta que estaria num esquadrão genovês atacado próximo do cabo S. Vicente, no tal episódio caricato que traz Colombo até Portugal, possivelmente a nadar.
Ou seja, zero certezas, mil confusões. Ainda aumentadas pelo Autor ao escrever que a baralhação de nomes entre Coullon (Colombo-o-Velho) possível protagonista do ataque ao esquadrão genovês e Colombo-o-Novo (John Bissipat) protagonista numa batalha naval contra venezianos em 1485, levou alguns a confundir a identidade do Almirante Colon com a de um dos corsários Colombo e que isto contribuiu para a orgulhosa afirmação feita pelo filho do humilde taberneiro, ao dizer que ele não era o primeiro Almirante da sua família.
É absolutamente inconcebível que o Autor impute uma afirmação do Almirante Colon, quando disse não ser o primeiro Almirante da família, ao alegado facto de ele ter sido induzido em erro ou tentação, por “alguns” (refere-se aos biógrafos Bartolomé de las Casas, Hernando Colon e a outros) que confundiram a sua identidade com a dos corsários Colombo e indicaram a data de 1485 para o tal naufrágio.
(Cf. pág. 37- «Biógrafos posteriores, Hernando Colon e Las Casas, fizeram muita confusão nos seus relatos deste período e colocaram Colombo numa outra batalha naval travada mais tarde, em 1485, entre venezianos e outro corsário, também conhecido por Colombo (mas ‘o-Novo’). Mas também há aqueles que tentaram usar isto para confundir ainda mais a questão da identidade de Colombo, avançando teorias que o identificaram com um dos corsários Coullon. Na verdade, a semelhança de nomes e a proximidade das datas deve ter sido uma grande tentação – e também terá contribuído para a orgulhosa afirmação feita uma vez pelo filho do humilde taberneiro…»)
Ou seja, para além dos já conhecidos atributos do Almirante Colon, o Autor descobriu-lhe um outro: futurologia – que lhe permitiu adivinhar o que os seus biógrafos escreveriam umas décadas depois dele morrer.
pág. 37 –Conseguindo a sua posição nos mundos da navegação comercial portuguesa e Atlântica, diz-se que Colombo navegou até Inglaterra em 1477 (embora isto seja altamente contestado) e até, subsequentemente, desde Bristol até à Islândia (o que é ainda menos provável).
+ Tem razão o Autor. Quem participou nessas viagens a Inglaterra e Islândia foi o futuro Almirante Colón, como escreveu nas suas anotações. O Colombo genovês continuava tecelão e taberneiro na sua terra, pois nada consta sobre a sua entrada nos mundos da navegação comercial portuguesa e Atlântica.
pág. 37 – Neste período as exportações de açúcar a partir da Madeira estavam a aumentar. Por volta de 1478-79, Colombo provavelmente navegou até à ilha da Madeira, como agente para o mercador genovês Paolo di Negro.
+ E repentinamente, o Autor transmuta o seu tecelão analfabeto (lembremo-nos que afirmou anteriormente que Colombo não escrevia genovês por não ser um idioma escrito, nem italiano porque nunca o aprendeu) em agente comercial. Como seria que o analfabeto lidava com a papelada do negócio?
pág. 37 - O irmão de Colombo, Bartolomeo, provavelmente juntou-se-lhe em Portugal, aparentemente trabalhando como cartógrafo em Lisboa.
+ Mais uma frase que condensa uma mão-cheia de nada: “provavelmente” e “aparentemente”.
Ou seja, sem quaisquer provas ou registos algum historiador anterior escreveu aquilo de que o Autor agora se faz eco. Não se conhece qualquer carta cartográfica assinada por Bartolomeo Colombo, nem sequer é minimamente verosímil que este outro tecelão “chegasse” a Portugal e se transformasse num perito em cartografia.
(continua...)
Carlos Calado




























