domingo, fevereiro 28, 2010

Conferência na Academia de Marinha (parte III)

Parte III

COLON: SEUS CÍRCULOS PESSOAIS E CIÊNCIA NÁUTICA

(Engº Carlos Calado)

Um dos aspectos que tem sido pouco explorado pelos historiadores para determinar quem era, efectivamente, o Almirante é a pesquisa e estudo das suas ligações pessoais próximas. As suas relações a nível familiar, social e profissional.Na época os casamentos assumiam uma importância determinante na sociedade. As famílias de determinados extractos sociais casavam os seus membros entre si, em redes muito fechadas e restritas. Os casamentos exprimiam perfeitamente quais as relações existentes entre as famílias.

Desde sempre que aconteceram vários casamentos entre descendentes do Almirante e membros de importantes famílias portuguesas. Não houve um único casamento entre descendentes do Almirante e membros de famílias de Génova. Houve apenas um casamento entre um descendente do Almirante e um membro de uma família “italiana”. E, curiosamente, este tinha ascendência familiar “Colonna”.

No seu litígio com os Reis Católicos Fernando e Isabel pela defesa dos seus direitos contratualmente estabelecidos, mas que lhe foram sendo retirados, o Almirante Don Cristóbal Colón foi auxiliado por D. Álvaro de Portugal (Bragança), também ele um nobre fidalgo que se mudou para Castela por ocasião da propalada segunda conspiração contra D. João II.

D. Álvaro de Portugal era casado com Dª Filipa de Melo, descendente de Vasco Martins de Melo, senhor dos direitos da Cuba, que lhe foram atribuídos pelo Rei D. Fernando em 1377.

Veja-se com quem casaram os filhos deste casal: D. Jorge Alberto de Portugal e Melo casou com Dª Isabel Colón, neta do Almirante Colón; Dª Beatriz de Vilhena casou com D. Jorge de Lancastre, filho do Rei D. João II.

O Almirante Colón escolhia muito bem os seus aliados e apoiantes. Este D. Álvaro de Portugal (Bragança) era Senhor de Tentúgal, Póvoa, Buarcos, Cadaval, e por acaso também de Vila Ruiva e Albergaria, localidades vizinhas da Cuba e actualmente integradas no concelho.

As ligações pessoais de Cristóvão Colon, quer em Portugal, quer em Castela, constituídas pelos três círculos de relações familiares, sociais e profissionais, concentram-se e convergem para Portugal, o Alentejo, o Duque de Beja e Cuba.

Não temos aqui tempo para descrever em detalhe cada uma destas relações, como fizemos no caso de D. Álvaro de Portugal, o que poderá vir a ser mostrado noutras oportunidades, mas podemos referir, muito ligeiramente, Frei Diego Deza,

Após ter apresentado a sua proposta aos Reis Católicos, Cristóvão Colon teve de sujeitar-se às avaliações de uma Junta de Sábios em Castela, presidida por Frei Hernando de Talavera.


O maior apoiante de Cristóvão Colon dentro da Junta foi Frei Diego Deza.

Este Frei Diego Deza era nem mais nem menos que um português, Diogo de Eça, filho de D. Fernando de Portugal e bisneto do Rei D. Pedro I.

Interessantíssimas as ligações familiares de Frei Diego Deza, apoiante de Cristóvão Colon, pois a maioria dos seus sobrinhos e sobrinhas casam nas famílias poderosas da Cuba (Melo e Ataíde, que foram titulares dos seus direitos), nas famílias de vilas contíguas a Cuba – Alvito, Viana, Alcáçovas, nas famílias Zarco e Moniz, havendo mesmo uma ligação com D. Diogo – Duque de Beja.

E podemos também referir, muito ligeiramente, Alonso Sanchez de Carvajal, homem de confiança do Almirante e ao que conseguimos apurar, muito provável descendente do primeiro titular dos direitos da Cuba em 1372, Diego Alonso de Carvajal.


Interessante, sob vários aspectos, o mapa que Juan de La Cosa, mestre da Nau Santa Maria e cartógrafo do Almirante, desenhou no ano de 1500. Nele se representa já todo o continente americano, do Norte e do Sul, apesar de oficialmente, o Norte do continente só ter sido descoberto vários anos mais tarde e no Sul apenas se havia explorado uma ínfima orla na costa norte. Compare-se o desenho de Juan de la Cosa com uma foto satélite actual e veja-se que são praticamente idênticos. Isto reforça a ideia de que aquelas terras já eram anteriormente conhecidas pelos portugueses.

Um outro aspecto prende-se com a miniatura de S. Cristóvão pintada no mapa e a coincidência de um S. Cristóvão com características similares e pouco comuns (Cf. Julieta Marques – “Cristóvão Colom, um filho de D. Fernando, Duque de Beja”) ter sido mandado pintar, num fresco gigantesco, na capela do Convento do Carmo, na Cuba, no ano de 1759. O padre chamava-se João Vieira Mendes e o fundador e titular do padroado era Martinho de Barahona. Singularmente, o fiel secretário do Almirante Colon chamava-se Diego Mendez (ou Diogo Mendes, pois era português) e um dos cunhados de Colon chamava-se Juan de Barahona. Não nos foi ainda possível determinar se havia descendências familiares de uma época para outra, mas é uma coincidência formidável.

Como também não deixará de ser coincidência uma outra gigantesca pintura de S. Cristóvão na catedral de Sevilha, na sala onde se encontra o túmulo do Almirante.


Ainda em Sevilha, no quadro “Virgem dos navegantes” está representado o Almirante Cristóvão Colon, cujo manto é decorado com motivos de três romãs abertas, dispostas em triângulo. No seu túmulo, um dos arautos que transporta a urna trespassa uma romã com a sua lança (Cf. Manuel da Silva Rosa – “O mistério Colombo revelado).

Pois, mais uma vez apenas por coincidência, este mesmo motivo de três romãs existe na Cuba, num portal que pertenceu ao Paço do Duque de Beja. Paço que foi mandado demolir por ordem do Rei Filipe I …


Uma outra pintura, agora no Palácio de Mafra, sala dos Heróis Portugueses ou das Descobertas (Cf. Julieta Marques – Cristóvão Colom, o Almirante de Nobre estirpe”.

São quatro as figuras principais representadas. O Infante D. Henrique (numa moldura), Vasco da Gama vencendo o Adamastor, Pedro Álvares Cabral empurrado por ventos junto ao Brasil e, no quadrante inferior esquerdo, um homem acorrentado. A explicação sobre a pintura, afixada num pedestal, nem sequer o menciona (questionámos a Direcção do Museu e recebemos uma tardia resposta que tal se devia a “falta de espaço”). Mas na própria pintura a legenda é bem clara “A Castilla y a Leon, Nuevo Mundo dio Colon”. Exactamente – Cristóvão Colon, acorrentado por Bobadilla, o que aconteceu em 1500, quando, em nosso entender, os Reis Católicos se aperceberam do logro, depois de Vasco da Gama ter chegado à verdadeira Índia.

Cristóvão Colon, na sala dos Heróis Portugueses!


Todos os historiadores escreveram que ‘Colombo’ estava enganado, pensando que chegara à Índia, mas…

Nas “Capitulaciones de Santa Fé de Granada”, documento onde os Reis Católicos prometem a CC os títulos, cargos e regalias para chegar à Ásia e descobrir o caminho para a Índia, via Ocidente, o texto é:

«como compensação do que descobriu no Mar Oceano e da viajem que agora irá fazer por esse mar ...

fazem, desde agora ao dito Don Cristóbal Colón, seu Almirante em todas aquelas ilhas e terras firmes que descobrir ou conquistar no dito Mar Oceano … »

Cristóvão Colon ludibriou os Reis, pois deslumbrou-os com a Índia, mas o que consta no documento nem sequer menciona a Índia ou a Ásia.


Vários historiadores escreveram que Colombo navegou ao acaso e não sabia medir latitudes.

Somente porque no Diário de bordo consta:

2 Nov: Aqui tomou o Almirante a altura com o quadrante e mediu 42º

Estava na ilha de Cuba, onde a latitude é de 21º.

Agora vejamos. A latitude de 42º (N) corresponde ao limite norte de Portugal, Rio Minho. Colon partiu de Palos, no sul de Espanha, navegou para Sul em direcção às Canárias e daí seguiu para Oeste, sobre o paralelo 28º. Já perto das Antilhas inflectiu para Sudoeste e Sul, até chegar à ilha de Cuba. Seria o Almirante tão incompetente e inconsciente para aceitar que estaria na latitude de 42º?

Seria o Almirante tão incompetente e inconsciente, mas ao mesmo tempo capaz de determinar a melhor rota para a viagem de regresso (de um local que supostamente não conhecia), passando pelas ilhas dos Açores, e sabendo calcular, com grande precisão, o local em que se encontrava, em pleno alto mar?

15 Fev: O Almirante, pela sua navegação, achava que estava

próximo das Ilhas dos Açores... (in Diário da 1ª viagem) –

Peço ajuda aos especialistas aquí presentes para clarificar esta contradição.

Salientando também que era usual os navegadores portugueses registarem os dados náuticos de forma codificada, multiplicando por dois o valor da latitude.

Salientando que Cristóvão Colon veio a Portugal descrever a sua viagem ao rei D. João II e este ameaçou os Reis Católicos, com o seu direito à posse daquelas terras, pelo tratado de Alcáçovas. E que este atribuía a Portugal as terras a sul do paralelo das Canárias (28º N).


Todos os historiadores escreveram que ‘Colombo’, quando regressava para Castela após a sua descoberta, sofreu uma grande tempestade que o arrastou para Lisboa, onde chegou no dia 4 Março, mas…

Ao partir de Portugal para Castela, escreveu aos Reis Católicos, fazendo um aditamento à carta anterior *:

«Depois de ter escrito esta * e de já estar no Mar de Castela, veio tamanho vento… que me fez descarregar os navios, … Mas eu corri para este porto de Lisboa, onde pensei em escrever a Vossas Altezas… Escrita a 14 de Março de 1493»

*A carta anterior dizia:

«Escrita na caravela, perto das Ilhas Canárias, no dia 15 de Fevereiro de 1493»

Sexta-feira, 15 de Fevereiro:

Depois do nascer do sol viram terra; alguns diziam que era a Ilha da Madeira, outros que era a Roca de Sintra em Portugal...;

O Almirante, pela sua navegação, achava que estava próximo das Ilhas dos Açores...

(e não perto das Ilhas Canárias como escreveu na carta * aos Reis)

Quinta-feira, 14 de Março:

Ontem, depois do sol posto, seguiu o seu caminho para Sul, e antes do nascer do sol encontrou-se junto ao cabo de S. Vicente...

Depois navegou para Leste em direcção a Saltés, e andou todo o dia com pouco vento até agora que está junto a Faro.

(e não no porto de Lisboa, onde já tinha chegado no dia 4)

Olhemos agora os registos no seu Diário de Bordo, a partir do dia em que largou da Ilha de Santa Maria, nos Açores, no regresso para Castela.

22 de fevereiro

... na Ilha de Santa Maria

24 de fevereiro

E, como estava bom tempo para partir para Castela... Mandou navegar para Este, e andou cerca de vinte e oito léguas.

25 de fevereiro

Navegou para Este, dezasseis léguas e um quarto. Depois do sol nascer andou outras dezasseis léguas e meia

26 de fevereiro

Navegou no seu caminho para Este, vinte cinco léguas. Depois do sol nascer, com pouco vento e aguaceiros andou cerca de oito léguas para Es-Nordeste

27 de fevereiro

Esta noite e dia andou fora de caminho pelos ventos contrários e grandes ondulação. Encontrava-se a cento e vinte cinco léguas do Cabo de S. Vicente, oitenta léguas da Ilha da Madeira e cento e seis léguas da Ilha de Sta. Maria

28 de fevereiro

Andou da mesma maneira esta noite com diversos ventos para Sul e para Sueste, de um lado e do outro, e para Nordeste e para Es-Nordeste, e assim todo o dia.

1 de março

Andou esta noite para ‘Este quarta de Nordeste’, doze léguas; de dia, para ‘Este quarta de Nordeste’, vinte e três léguas e meia.

2 de março

Andou esta noite no seu caminho para ‘Este quarta de Nordeste’, vinte e oito léguas e de dia andou vinte léguas.

3 de março

Depois do sol posto navegou a caminho de Este. Veio uma rajada que rompeu todas as velas e viu-se em grande perigo. Teria andado sessenta milhas (15 léguas) antes de se romperem as velas; depois andaram com mastro nú devido à tempestade. Viram sinais de estar perto de terra. Estavam perto de Lisboa.


Resumindo, no dia 26 de Fevereiro, o mar estava chão e a Niña navegou na direcção Este e depois Es-Nordeste; no dia 27 registou-se tormenta e a posição da Niña foi indicada pelo Almirante. Estava a 125 léguas do Cabo de S. Vicente, a oitenta léguas da ilha da Madeira e a 106 léguas da ilha de Sta. Maria.

Não tenho conhecimentos de navegação e limitei-me a utilizar processos matemáticos simples para determinar a posição e depois o trajecto do Almirante.

Seria interessante se algum membro da Academia, seguindo o relato do Diário de Bordo, aplicasse os apropriados métodos náuticos e científicos para confirmar ou negar as minhas conclusões.

Marcando num mapa os arcos de circunferência correspondentes a estas distâncias, para determinar o seu ponto de intersecção, que nos daria a posição exacta da caravela, concluimos que, com uma margem de erro mínima, a Niña estaria nas coordenadas (37º 05’N; 17º 40’W), ou mesmo ainda mais para Nordeste, dado que não há, no diário, indicação precisa sobre o número de léguas percorridas nos dias 27 e 28, nos quais, muito provavelmente, teria tentado manter a mesma rota Es-Nordeste já encetada no dia 26.

O Cabo de S. Vicente situa-se aproximadamente nas coordenadas (37ºN; 9ºW). Para se dirigir ao porto de Palos, em Huelva, de onde tinha largado em Agosto de 1492, a caravela teria de aproar um pouco para sul do cabo de S. Vicente, para daí seguir ao longo da costa algarvia até Huelva. Ou seja, como o Cabo de S. Vicente se situa praticamente na mesma latitude da posição da Niña no dia 27 de Fevereiro, a rota a seguir deveria ser directa para Este, inflectindo um pouco para Sul.

Mas não foi isso que o Almirante fez. Depois de no dia 28 ter andado um pouco aos ziguezagues, nos dias 1 e 2 de Março, ele navegou 83,5 léguas, não na direcção Leste que o levaria para Castela, mas sim na direcção ‘Leste Quarta de Nordeste’, (ângulo de 11º 15’ com a direcção Este, conforme me foi confirmado por um especialista em assuntos náuticos) que o levava para um ponto bastante a Norte do Cabo de S. Vicente. A aplicação de um cálculo trigonométrico simples permite determinar esse ponto no Atlântico, garantidamente já bem acima dos 38ºN.


Assim, no dia 3 de Março, quando as suas velas foram rompidas pela rajada de vento (admitindo que essa tempestade aconteceu mesmo) depois de ter retomado a direcção Leste, a caravela Niña encontrava-se efectivamente já a caminho e muito próximo de Lisboa.



Uma outra questão importante relaciona-se com a interpretação do tratado de Tordesilhas.

Enquanto o notável historiador Jaime Cortesão afirma

“admitimos que D. João II defendia conscientemente, em Setembro de 1493, a posse de terras continentais sul-americanas…

o objectivo principal, mas oculto, de D. João II foi o de reservar-se o descobrimento definitivo e o monopólio do caminho marítimo para a Índia …

(Cf. Jaime Cortesão – Os descobrimentos portugueses)

E Mascarenhas Barreto, mais recentemente e provocando grande polémica, vai mais longe e concluí que

Colon foi o agente secreto que provocou o Tratado de Tordesilhas.”

(Cf. Mascarenhas Barreto – O português Cristóvão Colombo, agente secreto do Rei D. João II)

Reagindo ao livro de Mascarenhas Barreto, os detractores da portugalidade de Cristóvão Colon afirmam que a D. João II apenas interessava obter espaço de mar, nomeadamente:

“Ao obter 270 léguas adicionais às 100 que Colombo tinha proposto com o apoio do Papa, os portugueses salvaguardaram a rota sudeste africana ... conseguindo todo o Atlântico Sul de que necessitavam para efectuar a curva larga pelo Oceano, imprescindível para navegar essa rota.” (Cf. A. Pinheiro Marques, “Portugal and the european discovery of America – Christopher Columbus and the portuguese”)

“…A partir de 1488, D. João II sabia já da necessidade de assegurar

uma larga volta pelo poente às armadas que demandavam o Cabo

da Boa Esperança por causa do regime de ventos.”

(Cf. V. Graça Moura, “Cristóvão Colombo e a floresta de asneiras” cit. Luís F. Reis Tomás)



Novamente, e perante esta imagem satélite sobre a qual representei as rotas aproximadas de Bartolomeu Dias (1488) e Vasco da Gama (1497) nas viagens em que contornaram o Cabo da Boa Esperança, e também os meridianos de 100 léguas e 370 léguas para ocidente de Cabo Verde, eu desejo recorrer à opinião de quem sabe de navegação, para que me confirmem se depois da viagem de Bartolomeu Dias, com ventos contrários ao longo da costa africana, embora se pudesse já saber que era conveniente procurar ventos favoráveis, se poderia saber onde sopravam, de molde a procurar garantir tal imensidão de mar que, veja-se, colocaria os navios portugueses a mais de 5.000 Km de distância do cabo da Boa Esperança quando se encostassem ao limite das 370 léguas (admitindo que não existia o continente sul-americano).

As 100 léguas não seriam suficientes? E como poderiam os portugueses conhecer esses ventos favoráveis se nunca tivessem navegado nessas zonas? E não é assim plausível que se conhecesse já a existência do continente sul-americano?

O Tratado de Tordesilhas foi apenas uma consequência dos acontecimentos, da viagem de ‘Colombo’, ou Tordesilhas terá sido uma consequência de objectivos?



quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Conferência na Academia de Marinha - (parte II)

Parte II

O MESSIANISMO DE CRISTÓVÃO COLON

(Ten. Coronel Carlos Paiva Neves)


«Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido»

Séneca

A versão oficial da história colombina retrata a figura do Almirante Cristóvão Colon como um plebeu de nome Cristoforo Colombo, natural de Génova que, nascido de pais pobres, tecedores e cardadores de lã, se veio a tornar no mais famoso de todos os navegadores do mundo, que descobriu as Américas, ao acaso, quando buscava a Índia, sem saber onde estava. Ao aprofundarmos o conhecimento sobre a vida e personalidade do navegador, que se revela em muitos casos, misteriosa e enigmática, também é verdade que somos determinados a inferir que estamos perante um homem com uma formação cuidada, dotado de profunda espiritualidade, de sentido messiânico e de uma vasta gama de conhecimentos. O propósito desta comunicação é desmistificar o estatuto de navegador ignorante e analisar alguns factos que evidenciam a manifestação afectiva ao serviço de Portugal.

Muitas vezes nos questionámos como seria navegar nos oceanos desconhecidos, sob o ponto de vista psíquico e emocional, evidentemente que não alcançamos uma resposta satisfatória, pois não conseguimos transportar o nosso consciente para o século XV. O Prof. Luís Adão da Fonseca oferece-nos uma descrição peculiar sobre o mar desconhecido:
«De facto o mar é o grande buraco, é negro, é escuro…É o espaço que separa a terra conhecida da terra não conhecida, que separa a terra habitada pelos homens pela terra não habitada, que nos separa do paraíso. Este conjunto de convicções, herdado de tempos anteriores que remontam às centúrias iniciais da Idade Média, atravessa todo o século XV, estando ainda vivo nos tempos de D. João II.»1
Este mesmo autor, sugere-nos a leitura dos textos de Cristóvão Colon onde esta coordenada aparece de forma expressa, e sendo assim, não podemos estar perante um curioso na matéria, ao invés, trata-se de um navegador que busca estes conhecimentos desde os primórdios da sua juventude. Nesta sequência, julgamos primordial o entendimento da política de sigilo dos descobrimentos no século XV, sobretudo desde o tempo do Infante D. Henrique até ao reinado de D. João II, para melhor contextualizarmos a envolvente de Cristóvão Colon. Por exemplo, o cronista Rui de Pina nada diz sobre a viagem decisiva de Bartolomeu Dias, mas relata com pormenor a chegada de Cristóvão Colon a Lisboa, no regresso da primeira viagem às Antilhas ao serviço dos Reis Católicos. Ainda o Prof. Adão da Fonseca refere que «de acordo com Jaime Cortesão existiu uma política oficial de sigilo a respeito do nosso esforço de descobrimento marítimo, e afirma que o esquecimento relativo a Bartolomeu Dias não pode deixar de ser o resultado da reserva a que eram sujeitas as expedições descobridoras.»2
Sabemos que esta temática não reúne consensos por parte dos investigadores, mas pela análise das fontes, interpretamos a política de sigilo como um pilar essencial na estratégia delineada pelos autores principais da expansão marítima, onde o Almirante Cristóvão Colon foi um actor destacado, como iremos analisar. Mas reforçamos esta tese da política de sigilo, com o parecer do Prof. José Manuel Garcia, referindo que no essencial, este procedimento estratégico existiu de facto, pois «enquadra-se de forma adequada numa política de “mare clausum”, que visava deter e garantir o exclusivo das explorações económicas resultantes das explorações geográficas que se realizaram ao longo do século XV e ainda em parte do século XVI.»3
Somos motivados neste momento por uma reflexão, na medida em que o empreendimento das descobertas marítimas não continham exclusivamente o estímulo económico, mas um outro vector de natureza espiritual, que Jaime Cortesão foi recolher no franciscanismo e á sua mística.
Como veremos, este vector franciscano atravessa a vida do Almirante Cristóvão Colon.
Todavia o autor da Política de Sigilo nos Descobrimentos Portugueses, não coloca a questão quanto á presença de Cristóvão Colon em expedições realizadas a S. Jorge da Mina? Recordemos que S. Jorge da Mina era uma feitoria estratégica para Portugal, sobre a qual Duarte Pacheco descreveu o seguinte: «na qual casa nosso senhor acrescentou tão grandemente o comércio que em cada ano se tiram dali por resgate, que vem para estes reinos de Portugal, cento e setenta mil dobras de ouro fino, e muito mais em alguns anos se resgata e compra aos negros que de longes terras este ouro ali trazem, os quais são mercadores de diversas nações […] Esta gente até agora fora gentios e já alguns são feitos cristãos.»4
Se até S. Jorge da Mina os portugueses poderiam navegar com costa á vista, a descoberta dos Açores seguiu uma metodologia diferente, facto que teria motivado outras expedições no Atlântico Norte. Sobre a descoberta dos Açores respondeu o Almirante Gago Coutinho que o «segredo político impediu que se contasse como os portugueses tinham chegado aos Açores. Uma só vez transpirou o segredo do descobrimento do arquipélago: na carta de Valsequa, isto é, dum Judeu converso de Maiorca, pertencente à mesma comunidade de religião e meio social do cartógrafo do Infante»5.
É interessante também notar que o Rei Cristiano I da Dinamarca, enviou às costas da Gronelândia, a pedido do rei Afonso V de Portugal, uma expedição de que faziam parte marinheiros portugueses. Como referiu Luís Ulloa, historiador peruano e investigador especializado nos temas do Descobrimento da América e na figura de Cristóvão Colon, «datas e testemunhos levam a pensar que Colombo fez parte dessa expedição»6, e o próprio Colon deixa-nos o testemunho: «tudo o que se navegou, também lá andei». Analisando esta sequência de factos, sugerimos então uma questão: Seria Cristóvão Colon parte integrante da estratégia sigilosa por parte da Coroa portuguesa? A carta enviada pelos Reis Católicos a Cristóvão Colon, em Setembro de 1493, portanto um ano antes da assinatura do Tratado de
Tordesilhas, expressa intenções para obtenção de informações sobre a eventual existência de ilhas e terra firme, mais ricas e proveitosas, os quais afirmavam que: «… sabemos que disto sabeis vós mais do que alguém, vos rogamos que logo nos envieis vosso parecer… por isso, por nosso serviço, vos rogamos que logo nos escreveis…»7. Nesta carta, os Reis Católicos expressam o seu conhecimento acerca do serviço que Cristóvão Colon prestou à Coroa portuguesa, no âmbito das navegações.
No capítulo do serviço e afectos prestados a Portugal, comecemos pela carta enviada por D. João II a Cristóvão Colon, em 20 de Março de 1488, em resposta à que o Almirante dirigiu ao Rei de Portugal, cujo teor se desconhece, mas que se constitui como uma peça fundamental para estabelecer ligações dentro deste processo histórico. Analisemos o teor da carta de D. João II, relevando os aspectos afectivos: «nosso especial amigo em Sevilha… vimos a carta que nos escreveste e a boa vontade e afeição que por ela mostrais terdes a nosso serviço, vos agradecemos muito… que vossa industria e bom engenho nos será necessário, nós a desejamos… e por tanto vos rogamos e encomendamos que vossa vinda seja logo e para isso não tenhais pejo algum…»8.
Quais foram então os supremos interesses de D. João II, para rogar ao seu especial amigo, que retornasse logo a Portugal, amigo este que demonstrou boa vontade e afeição pelo serviço em prol do monarca? O Almirante Gago Coutinho por ocasião de uma conferência na Sociedade de Geografia de Lisboa, sobre as múltiplas versões falsas criadas por leigos da náutica, referiu que Cristóvão Colon «tantas vezes embarcou com os portugueses e se limitou a fazer como os outros navegadores ocidentais».9
Bartolomé de Las Casas reforça este aspecto na História das Índias, indicando que Colon «navegou algumas vezes aquele caminho (o do Ocidente) em companhia dos portugueses como pessoa já residente e quase natural de Portugal.»10
Segundo a versão oficial, Cristóvão Colon descobriu o Novo Mundo por acaso e sem saber onde estava, no entanto esta tese não nos parece de todo plausível, pois o Almirante adquiriu experiência desde muito cedo, nas navegações Atlânticas, perfeitamente inseridas em missões portuguesas.
No regresso da primeira viagem realizada às Antilhas, em Março de 1493, desloca-se a Vale de Paraíso, onde se encontrava o Rei D. João II, antes de dar a boa nova aos Reis Católicos, cujas ocorrências são registadas no seu diário de viagem, e nessa célebre entrevista pode-se analisar o ambiente afectivo existente entre o Rei português e o Almirante: «…o Rei o recebeu com muita honra, e lhe fez muito favor, mandou sentar e falou muito bem, oferecendo-lhe que lhe mandaria fazer tudo o que aos Reis de Castela e a seu serviço cumprisse…»11, «…hoje, depois da missa, voltou a dizer-lhe o Rei, se tinha necessidade de algo que logo se lhe daria, e conversou muito com o Almirante sobre a sua viagem, e sempre lhe mandava estar sentado e fazer muita honra…»12, «hoje se despediu do Rei, e lhe disse algumas coisas que dissesse da sua parte aos Reis, mostrando-lhe sempre muito amor. Partiu depois de comer, e enviou com ele, D. Martinho de Noronha, e todos aqueles cavaleiros o vieram acompanhar e fazer honra…»13.
De regresso de Vale Paraíso, visitou o mosteiro de Santo António em Vila Franca de Xira para apresentar as suas homenagens à rainha D. Leonor de Portugal, que mostrava muito desejo de o ver. Que laços familiares poderão estar escondidos, entre a Rainha de Portugal e o Almirante?
Ainda outro episódio tangível ao sentimento patriótico, ocorreu no Verão de 1502, após iniciar a quarta viagem. O Almirante foi informado de que uma fortaleza em Arzila se encontrava sitiada pelos mouros, ordenando que fossem em auxílio dos portugueses que se encontravam em apuros. Cristóvão Colon «tinha uma relação afectiva forte com os portugueses, e partir para as Índias sem acorrer em seu auxílio teria sido impensável… O almirante enviou a terra o seu irmão Bartolomé Colombo e Fernando, juntamente com os capitães dos navios, para se encontrarem com o capitão de Arzila, que tinha sido ferido pelos mouros num combate. O comandante português retribuiu a gentileza de modo cortês.»14
Tudo isto é vivido num ambiente messiânico profundo e enquadrado numa grande influência franciscana, que está patente desde o reinado de D. João I, até ao reinado de João II. A espiritualidade e a cultura intelectual são protagonizadas por frades franciscanos.
O Prof. Aurélio de Oliveira refere que «o espírito descobridor de Portugal revestiu-se também, graças à tendência espiritual que o cristianismo franciscano tomou entre nós, de sentido missionário»15
O espírito de S. Francisco foi objecto de uma devoção amplamente difundida e enraizada na Corte de Portugal, bem patente a partir dos finais do século XIV até aos primórdios do século XVI. Veja-se por exemplo, que após a entrevista concedida pelo Rei D. João II, a Cristóvão Colon, já citada, o monarca «se refugia (será este o termo adequado?) em Torres Vedras, em cuja região está desde o final de Março até finais de Setembro...»16.
Nesta localidade está situado o convento do Varatojo, de devoção franciscana, mandado construir por D. Afonso V. No ano seguinte, em 1494, é assinado o Tratado de Tordesilhas. Estaria então o Rei D. João II em recolhimento franciscano para planear estrategicamente a assinatura do referido Tratado? Foi neste ambiente das viagens empreendedoras concretizadas pela Ordem de Cristo, que Cristóvão Colon recebeu influência, e nelas faziam parte os frades franciscanos que «levaram a palavra de Cristo, pelos conselhos evangélicos, concretizando assim um dos ideais portugueses ao partir: levar a Boa Nova a todas as gentes e tornar Jesus Cristo conhecido em todos os locais!»17
O franciscanismo de Cristóvão Colon está bem identificado nas suas palavras e comportamentos, que denotam uma formação religiosa muito precoce de natureza perceptoral. Notemos alguns registos demonstrativos: «… porque era muito devoto de S. Francisco, vestiu-se de pardo… ao tempo que chegou cá, vestido quase como frade de S. Francisco.»18; «...sempre foi devoto da Ordem do bem-aventurado Santo Senhor S.
Francisco e com o seu hábito morreu...»19; «É bem patente a importância do vocabulário afectivo, sensível e inclusive a experiência mística: “Deus me abriu a vontade, este fogo, esta luz”. Reconhece-se que nos planos teológico e filosófico tinha uns conhecimentos próprios da elite secular»20.
Foi dentro desta tipologia do secular, própria dos membros da Ordem Terceira, que pretendeu situar-se Cristóvão Colon, chegando mesmo a definir-se como “leigo não letrado”. O seu saber é demonstrado pelo saber empírico, em que insistiam especialmente, os franciscanos e os professores universitários nominalistas21.
Na carta dirigida aos Reis Católicos, em 1501, escreve: «Ó Senhor que quisestes ter em segredo tantas coisas aos sábios, e revelaste-as aos inocentes…»22
Em alguns textos de Cristóvão Colon, o não letrado e ignorante, pode por revelação divina, conferida pelo Espírito Santo, ensinar os sábios, porque, conforme é referido na mesma carta: «o Espírito Santo obra em Cristãos, Judeus, Mouros e em todos de outras seitas, e não só nos sábios, mas nos ignorantes…»23.
A mentalidade messiânica de Colon estava imbuída de um espírito de cruzada, como atesta: «… a razão que tenho é a restituição da Casa Santa, isto é, Jerusalém…»24, e com uma base de conhecimentos alargada em, cosmografia, história, crónicas, filosofia, e outras artes, com influência de gente sábia, eclesiásticos, seculares, latinos e gregos, judeus e mouros, e com outros de outras seitas, conforme o próprio regista nessa mesma carta. Relembremos que a ciência medieval, a cosmografia, astrologia, geografia, medicina, alquimia, foram muito protagonizadas pelos franciscanos em Portugal, sendo de todo plausível que Colon tivesse recebido os seus ensinamentos.
Os conhecimentos de Colon são ainda atestados pela riqueza de citações no seu Livro das Profecias, de «Aristóteles, Plínio, Séneca, Estrabão, Ptolomeu, Esdras, Escoto, Beda, Pedro
Comestor, Pedro de Alíaco, Eneas Sílvio, Marco Pólo. Os livros de cabeceira seriam os de
Ptolomeu, Pedro de Alíaco e Marco Pólo, além das Sagradas Escrituras e das lições dos
Santos Padres, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, Santo Isidro, S. João Crisóstomo.»25
Citando o Prof. Alain Milhou «a consciência e cultura messiânica de Cristóvão Colon, inscrevem-se fundamentalmente na trajectória do franciscanismo joaquimita.»26
Em Portugal, esta corrente está relacionada com o culto do Espírito Santo iniciado com a rainha Santa Isabel e que actualmente ainda é festejado nos Açores, nas festas do Divino
Espírito Santo e em Tomar na festa dos Tabuleiros. «A larga permanência em Portugal teve também a sua importância na formação do messianismo colombino, não tanto para o tema
de Jerusalém, presente na mente cavaleiresca de D. Afonso V, mas na luta contra o Islão e
a aliança com as cristandades ocultas e do misterioso Prestes João. Conservando a recordação da gesta portuguesa, não vacilaria Colon, na relação da sua terceira viagem de
1498, em dar aos Reis Católicos o exemplo dos Reis de Portugal que mantiveram com grande gasto, servir a Deus e acrescentar seu senhorio…»27.
Julgamos que na sua permanência em Portugal, Colon recebe influência de D. Afonso V, que de acordo com Rui de Pina: «era amigo das letras e honrava os que as sabiam, e foi o primeiro Rei que faz livraria em seus Paços, no que se parecia com seus tios, o Rei D. Afonso de Nápoles e com o Infante D. Pedro»28.
A Enciclopédia Espasa refere que os «portugueses eram, então, os navegadores mais hábeis e empreendedores da Europa, e entre eles pode Colombo ter adquirido todo o conhecimento e perícia que revelam seus feitos posteriores.»29
Ainda recentemente o Professor Juan Gil, da Universidade de Sevilha e perito em estudos
Colombinos, atribui à sua permanência em Portugal a seguinte visão: «… Este ambiente excitante e exótico, cheio de grandiosos projectos enriquece a sua experiência e possibilita
o descobrimento, pois quando se estabelece em Espanha… Colombo dispunha de um amplíssimo caudal de conhecimentos em mundos e mares… e esta etapa portuguesa é tão decisiva que marca indelevelmente a mentalidade do Almirante, que morre acreditando ter alcançado o seu sonho (das Índias), um sonho próprio de um português e que só a um português estava reservado.”30
O Almirante Cristóvão Colon tinha um outro comportamento que merece análise cuidada, fazia algumas vezes o juramento a S. Fernando, «quando alguma coisa de grande importância nas suas cartas queria com juramento afirmar…»31.
Fomos pesquisar sobre S. Fernando, e identificámos o Rei Fernando III de Castela, «falecido a 30 de Maio de 1252, aos 53 anos de idade, que foi canonizado a 16 de Agosto de 1673» 32. Porém, confrontamos a análise do Prof. Alain Milhou, que colocou a hipótese remota, de se tratar do Infante Santo de Portugal, cujo martírio foi profundamente sentido na sociedade portuguesa e especialmente vivido por seu sobrinho o Rei D. Afonso V. «Santo lhe chamaram, e chegou a ter culto na Batalha, na igreja de Nossa Senhora da Oliveira em Guimarães, e provavelmente também em Lisboa, da última metade do séc. XV até fins do XVII.»33
Este facto não deve ser desligado das fortes ligações afectivas que Cristóvão Colon tem com
Portugal e os portugueses.
Julgamos ter evidenciado um conjunto de argumentos que fazem denotar um messianismo em Cristóvão Colon, baseado numa sólida formação filosófica, religiosa e científica, integrada numa influência espiritual dos Descobrimentos Portugueses. A propósito, o investigador italiano Ruggero Marino, sugere-nos as seguintes reflexões: «É credível a empresa de um obscuro e ignorante marinheiro que não sabe nada, mas que adivinha tudo, que frequenta a Corte do Rei de Portugal…? Em Portugal onde casa com uma nobre donzela? Que é recebido pelos Reis Católicos e consegue credibilizar a sua estratégia? Que contacta com monges e cardeais? Que se corresponde com Toscanelli?»34
Torna-se pois, imperioso estimular as mentalidades científicas para a pertinência da investigação académica em torno da personalidade e do pensamento de Cristóvão Colon.
Este estímulo é reforçado pelo Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, que nos revela o seguinte:
«Entre as obras que deixo inacabadas para o prelo, figura uma com o título Cristóvão Colombo e Portugal, que coligi com boa cópia de argumentos, nos últimos vinte e cinco anos. São uma dúzia de ensaios históricos que dizem respeito á história portuguesa entre os anos de 1470 e de 1510. Devo confessar que, para a melhoria do texto em muito contribuíram as investigações que Manuel da Silva Rosa teceu acerca do descobridor do Novo Mundo, num esforço de revisão que merece o qualificativo de sério e diligente…
Mas o novo autor segue com idêntico e, embora, a nosso ver, não prove definitivamente a nacionalidade lusa de Colombo, avança com argumentos que impõem ponderação e estudo.»35
Gostaríamos de finalizar com as palavras e a elevada admiração que nutrimos pelo
Almirante Gago Coutinho: «Enfim, sem diminuir Colon, a verdade é que, da sua nebulosa e aventurosa vida, só se apura o que ele fez como navegador: E, como tal, Colon foi, inquestionavelmente, português.»36
1 Luís Adão da Fonseca, “D. João II – Reis de Portugal”.
2 Idem
3 Prof. Dr. José Manuel Garcia, Prefácio “A Política de Sigilo nos Descobrimentos Portugueses” de Jaime Cortesão.
4 Jaime Cortesão, “A Política de Sigilo nos Descobrimentos Portugueses”.
5 Idem.
6 Luís Ulloa, 1927, facto confirmado pelo director da biblioteca de Copenhaga, Sofus Larsen.
7 Carta de 5 de Setembro de 1493, dos Reis Católicos a Colombo.
8 Joaquim Veríssimo Serrão, “Itinerários de El-Rei D. João II”, Academia Portuguesa da História.
9 Diário da Manhã, 17 de Dezembro de 1944 – conferência de Gago Coutinho.
10 Eduardo Pereira, “Cristóvão Colombo em Porto Santo e na Madeira”.
11 Joaquim Veríssimo Serrão, “Itinerários de El-Rei D. João II”, Academia Portuguesa da História; Cf. Diario del
Primer Viaje, estudo citado, p. 136.
12 Idem.
13 Idem, pág. 136-137.
14 Martin Dugard, “A Última Viagem de Colombo”.
15 Aurélio de Oliveira, “Os Descobrimentos Portugueses, Vol II, pág. 472, citado em Coordenadas espirituais na Génese
da Expansão – Os aspectos místico-religiosos na tese de Jaime Cortesão”.
16 Luís Adão da Fonseca, “D. João II – Reis de Portugal”.
17 Manuela Mendonça, “O Franciscanismo em Portugal – Séc. XIII-XVI”.
18 Bartolomé de Las Casas, História das Índias.
19 Raccolta[55], parte II, Vol. 1, p. 207.
20 Alain Milhou, Cristóvão Colon “Modelo “idiota” que ensina os sábios”.
21 Fundadores do nominalismo, os franciscanos Duns Scoto (m.1308) e Guilherme Occam (m.1349).
22 Carta de Cristóvão Colon aos Reis Católicos, Livro das Profecias, 1501.
23 Idem.
24 Idem.
25 Cristóvão Colombo – Carta do Achamento das Antilhas (15 de Fevereiro/14 de Março de 1493, Prof. Doutor Manuel
Viegas Guerreiro.
26 Alain Milhou, Cristóvão Colon “Modelo ‘idiota’ que ensina os sábios”.
27 Relação da Terceira Viagem [65], fol. 2 r.
28 Reis de Portugal - D. Afonso V, Saúl António Gomes.
29 Enciclopédia Espasa – Enciclopédia espanhola do século XX.
30 Idem, citação do Prof. Juan Gil da Universidade de Sevilha.
31 Bartolomé de Las Casas, Historia das Índias.
32 Santos de Cada Dia, II volume, pp. 110 e Catholicisme, Tomo IV.
33 Enciclopédia Luso-Brasileira.
34 Ruggero Marino (Investigador Italiano).
35 Prefácio de Joaquim Veríssimo Serrão, em Colombo Português, Manuel da Silva Rosa.

terça-feira, fevereiro 16, 2010

Conferência na Academia de Marinha - (parte I)

Parte I
CRISTÓVÃO COLON E A ESTRATÉGIA NACIONAL PORTUGUESA
(Ten. Coronel Brandão Ferreira)
“Não queirais ser genoveses mas sim muito portugueses”
Gil Vicente
Creio que todos os estudos sobre a figura e feitos de Colon deverão começar por o situar na época em que viveu fazendo-se uma análise geopolítica e geoestratégica dos cenários mundiais, de então, que interessem ao objecto do estudo. Tal é fundamental para se enquadrar e entender tudo o que se passou e exorcizar de vez a injusta frase de Winston Churchill sobre Cristóvão Colon : “Não sabia para onde ia, nunca soube onde estava e tudo isto feito com o dinheiro dos contribuintes”. Ora Colon sabia muito bem para onde ia, soube sempre onde estava e, para mim, quanto mais dinheiro gastasse ao contribuinte espanhol, melhor!
Quero lembrar que os factores mais importantes e estáveis da Geopolítica – disciplina praticamente ignorada em Portugal – são a Geografia e o carácter do povo. A geografia não muda e o carácter do povo, muda muito devagarinho, quando muda. Por outro lado a Estratégia tem a ver sobretudo com os conflitos e ameaças, isto é, a aplicação do Poder.
Portugal é a Nação mais antiga da Europa, e, possivelmente, do mundo (lembro que o Japão é uma ilha e só foi unificado depois dos portugueses lá terem introduzido a arma de fogo). O Condado foi individualizado “de facto”, em 1128, por Afonso Henriques e estava formado como Estado-Nação no reinado de D. Dinis. É neste reinado que se fixam as fronteiras; que se funda a Universidade, que se cria a Marinha de Guerra, e até o Exército, com os besteiros de conto, a título permanente; se estatui que todos os documentos oficiais sejam escritos em português, e não em latim, como era até então; se reorganiza a economia, a defesa e a organização do território e até se instituiu uma espécie de religião própria dos portugueses: o culto do Espírito Santo.
A Nação portuguesa tem ainda uma matriz mística e escatológica que nos vem de Ourique e tem raízes na Ordem do Templo e se prolonga na Ordem de Cristo. São estes fundamentos, mais do que as especiarias; que nos levaram ao Oriente, tentando o encontro e a união dos Cristãos do Ocidente com os daquelas partes.
Todo este “edifício” sofreu um forte abanão com a crise de 1383-85, mas saiu reforçado no fim dela e com a noção da necessidade de se conseguir apoios exteriores à Península Ibérica de que a Aliança Inglesa é, ainda hoje, a prova desse corolário.
Em 1411, após a paz com Castela pôs-se a questão do que fazer: basicamente havia duas vertentes: a expansão na Andaluzia em direcção a Granada, ou pôr pé em África. Foi esta segunda hipótese que vingou, e logo de seguida começaram as navegações de descoberta marítima para o Atlântico Sul e Central.
“É muito perigoso ter razão em assuntos sobre os quais as autoridades estabelecidas estão completamente equivocadas.”
Voltaire
Portugal era, pois, em meados do século XV uma nação cheia de força e estava à frente de qualquer outro país nos campos da cartografia, arte de marear, astronomia, construção naval, armamento, fortificação, estudo dos ventos e marés, etc., etc..
O nosso problema geopolítico maior era o de garantir a individualidade face à poderosa vizinha Castela – como, aliás, nunca deixou de ser até hoje – em processo acelerado de unificação de todo o território que se veio a denominar, em 1492, de Espanha. Como já dizia Zurara, “por um lado nos cerca o mar e por outro temos muro no reino de Castela”.
As potências do Norte da Europa ainda lambiam as feridas das contendas internas e entre elas, e eram alheias ao Atlântico Central e Sul. As Repúblicas Italianas preocupavam-se em estabelecer zonas de influência no Mediterrâneo e em manter comércio com o Levante e o centro e norte da Europa. O Papa tentava um equilíbrio entre os estados italianos e as potências que os queriam dominar: a Espanha, a França e a Áustria.
O Império Turco expandia-se rapidamente e com alarme, tendo conquistado Constantinopla, em 1453, alargando-se em todo o Médio Oriente e no Mediterrâneo Oriental.
A Sul havia a ameaça moura e berbere. A pirataria e o corso abundavam e também perturbavam a navegação portuguesa.
Portugal era o único país onde se mantivera o ideal de cruzada – um exército preparado por D. Afonso V para ajudar o Papa é desviado para conquistar Arzila e Tanger, em 1471, após o apelo daquele ter ficado sem efeito, é disto exemplo eloquente.
Portugal tentava uma expansão constante no Norte de África e navegava para Sul contornando o continente africano e aventurava-se cada vez mais no Atlântico Central, Sul e Ocidental.
A estratégia nacional ao tempo de D. João II, pode-se resumir na:
- manutenção da autoridade real e segurança interna do Reino;
- defesa da rota da Guiné;
- busca da rota da Índia através do contorno de África;
- neutralidade atenta na Península;
- relações privilegiadas e de reciprocidade com a Santa Sé; (abolição do Beneplácito Régio, em 1487);
- comércio e presença diplomática na Europa do Mar do Norte, impedindo o acesso dos seus marinheiros às nossas rotas, a Sul;
(tratado de aliança com Carlos VIII de França, em 1495 e confirmação do Tratado de Windsor, em 1489, por exemplo);
- política de segredo em relação a tudo o que se relacionasse com as Descobertas.
Com a descoberta de riquezas no Golfo da Guiné (ouro, escravos e malagueta) o que levou à construção do Castelo da Mina, em 1482, estas atraíram a cobiça dos castelhanos. Por esta altura negociou-se o Tratado de Alcáçovas/Toledo assinado em 1479/80. Neste tratado, efectuado na sequência da derrota política de D. Afonso V que o empate da batalha de Toro, em 1476, consumou, acordou-se:
- pazes entre Portugal e Castela;
- a aceitação, por Portugal, de Isabel como herdeira do trono castelhano;
- o casamento de Isabel, filha dos reis católicos, com o herdeiro português, o infante D. Afonso, de que as Terçarias de Moura, constituíram um penhor;
- a cedência da soberania das Canárias, a Castela, em troca da expansão portuguesa em Marrocos (reino de Fez);
- uma linha, que passava no paralelo das Canárias, estando a navegação para sul da mesma, reservada a Portugal (foi por isso que Colon na sua 1ª viagem navegou para oeste ao longo deste paralelo).
SLIDE 13
Ora, o objectivo perseguido pelos portugueses era o de chegar à Índia e ao Reino de Prestes João (a actual Etiópia) e as informações que se foram acumulando, levavam a crer que o modo mais rápido de lá chegar era por Oriente. Tais dúvidas desapareceram, quando Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, em 1487, e as notícias da expedição por terra ao Oriente, de Afonso da Paiva e Pêro da Covilhã, chegaram a Lisboa, em 1491 (esta expedição foi antecedida da de Frei António de Lisboa e Pedro de Montarroyo, ao oriente, tendo estes chegado a Jerusalém e regressado por não dominarem o árabe).
As expedições marítimas sucederam-se em todas as direcções, havendo notícias dos portugueses terem chegado ao continente americano, muito antes de Colon. Tudo era mantido no maior segredo (cujas principais leis foram decretadas em 1481). Porém, os castelhanos continuavam interessados no comércio da Guiné, violando o tratado acordado e, apesar das pazes, os Reis Católicos apoiaram as tentativas de golpe de estado dos Duques de Bragança e Viseu, juguladas por D. João II. Ou seja tudo estava incerto.
É aqui que entra Colon, e é por esta altura que se deve ter dado a ocultação do seu nome atrás do pseudónimo. Um dos mistérios que continua por resolver.
E a estratégia – trata-se de uma estratégia extraordinária! - Que se encaixa perfeitamente na tese de um Colon português ao serviço do Rei de Portugal – era a de convencer os espanhóis que se poderia atingir a Índia por Ocidente, fazendo-os desistir de nos incomodarem naquilo que andávamos a intentar.
SLIDE 14
Quando Colon dá a notícia, em primeira mão – note-se – a D. João II no regresso das Antilhas, em Março de 1493, desenvolveram-se, de imediato, várias jogadas no tabuleiro geopolítico da altura: D. João II reclama a soberania das novas terras, alegando que estas estavam em zona portuguesa e mandando aprontar uma esquadra, comandada por D. Francisco de Almeida, para tomar posse delas. Julga-se ter sido um “bluff” para forçar os espanhóis a negociações, o que ocorreu no mês seguinte.
A corte espanhola não estava, porém, inactiva, já que convenceu o Papa Alexandre VI a publicar duas bulas, a “Inter Coetera I” e “Eximus Decotinis”, de 3 de Maio de 1493, que anulavam as doações pontificas a Portugal, para ocidente; e ainda a “Inter Coetera II”, do dia seguinte, em que se deslocava para 100 milhas a oeste de Cabo Verde, o meridiano, para além do qual a navegação estava reservada a Espanha; as coisas ainda pioraram para Portugal quando o mesmo Papa dez publicar a bula “Dudem Siquidem”, de 26/9/1493, em que anula tudo o que está a favor de Portugal. Até que os diplomatas portugueses conseguiram convencer os delegados espanhóis a assinarem o Tratado de Tordesilhas, em 7 de Junho de 1494, sem estes se aperceberem – por não terem modo de saber que estavam a comer gato por lebre. Magistral jogada esta que permitiu garantir a posse para Portugal do Brasil e da Terra Nova, já que a linha de meridiano que passava a 100 léguas a oeste de Cabo Verde foi estendida para 370 léguas.
SLIDE 15
Ainda por cima o tratado foi abençoado por um Papa (Bórgia) por ironia do destino de origem espanhola – a fonte de Direito Internacional da altura.
Os espanhóis, esses, só deram pelo embuste – embora até hoje o não reconheçam! – quando Vasco da Gama regressou de Calicut, em 1498.
“A História é património comum. Por isso, não devemos deixá-la cair em más mãos”.
Georges Duby
(filósofo francês, em entrevista concedida ao “L’Éxpress” de 14/2/92)
Deste modo se conseguiu, definitivamente, afastar os espanhóis do caminho da Guiné e da Índia, embora não se pudesse intuir, na altura, que o prescrito no tratado nos reservasse o conflito sobre as Molucas, ao passo que facilitaria a expansão para Oeste, no Brasil, ao tempo da Coroa Dual.
SLIDE 17


Por tudo isto e muito mais não se entende porque em Portugal há tanta resistência em tratar este tema, sobretudo por parte das autoridades políticas, e académicas.
Mas isso é um assunto que deixarei para a discussão final.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Conferência "Em torno da mistificação Colombo"



Breve apresentação da Associação Cristóvão Colon


















sexta-feira, fevereiro 05, 2010

A Conferência na Academia de Marinha

A Conferência na Academia de Marinha, "Em torno da Mistificação Colombo" no passado dia 2, foi bastante animada e julgamos ter alcançado o objectivo principal, que é o de alargar a discussão deste tema.

O auditório estava completamente cheio, lotação esgotada, com Académicos e convidados, demonstrando que existe, efectivamente, interesse em ouvir e debater "Colombo".
Para além dos três oradores - Engº Carlos Calado, Ten. Coronel Brandão Ferreira e Ten. Coronel Carlos Paiva Neves, estiveram presentes na assistência alguns outros membros da Associação Cristóvão Colon.

A mesa da Conferência foi constituída pelo Presidente da Academia - Almirante Vieira Matias, pelos membros do Conselho Académico - Prof. Dr. Francisco Contente Domingues, Vice Presidente da classe de História Marítima e Profª Drª Raquel Soeiro de Brito, Vice Presidente da classe de Artes, Letras e Ciências, tendo o Presidente da A.C.C. - Engº Carlos Calado, também sido convidado para ficar na mesa.


Após a abertura da sessão pelo Sr. Almirante Vieira Matias, o Presidente da ACC usou alguns poucos minutos para fazer uma brevíssima apresentação da Associação Cristóvão Colon, introduzindo logo de seguida a "Mistificação Colombo", constituída por três partes:

Parte I - «Cristóvão Colon e a estratégia nacional portuguesa»
pelo Ten. Coronel Brandão Ferreira
Parte II - «O messianismo de Cristóvão Colon»
pelo Ten. Coronel Carlos Paiva Neves

Parte III - «Colon: seus círculos pessoais e ciência náutica»
pelo Engº Carlos Calado

Porque as introduções, as palestras e a alocução final fizeram prolongar a sessão cerca de 15 minutos para além da hora prevista, o Presidente da Mesa lamentou ter de limitar a fase de debate a três perguntas, quando havia mais de vinte participantes a pretender colocar questões ou adiantar opiniões, como foi o caso.
Mas, perante tanto interesse e vontade de debater, opinar e questionar por parte de tantos participantes, estamos em crer que a sessão teria de prolongar-se noite dentro para proporcionar a intervenção de todos os interessados.

A encerrar e correspondendo às questões e às sugestões propostas, quer durante as palestras quer na alocução final pelo Ten. Coronel Brandão Ferreira, o Presidente da Academia concordou em convidar os Académicos a estudar os temas suscitados e que o passo seguinte possa ser a realização duma "mesa redonda" para debate dos temas entre Académicos e Membros da ACC.

O Prof. Dr. Francisco Contente Domingues, afirmou que, perante a decisão do Presidente da Academia em colocar o tema nas mãos dos Académicos, alterava a sua posição anterior publicamente manifestada (por ocasião da palestra de Manuel Rosa na Sociedade de Geografia de Lisboa) de não voltar a abordar o tema 'Colombo', para se empenhar nesta "Mesa redonda" e, embora continue a considerar que não é importante determinar qual era a sua nacionalidade, afirmou concordar com o nosso slide de encerramento, onde transcrevemos a opinião da Presidente da Academia Portuguesa de História, Profª Drª Maria Manuela Mendonça - "Colombo é uma questão em aberto".

O site da Academia publicou a notícia sobre a Conferência, cujo link indicamos abaixo

http://www.marinha.pt/pt/amarinha/actividade/areacultural/academiademarinha/noticias/pages/noticias_am.aspx

Em breve aqui publicaremos as palestras proferidas na Conferência.