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segunda-feira, agosto 02, 2010

Raccolta Colombiana - Provas da Falsidade Histórica

Documentos decisivos que provam a mentira do Colombo tecedor de lã Genovês  ser o mesmo Almirante e Vice-rei Colon.

NOTA de Maio 22, 2015: São agora 5 anos após escrever este artigo, soube que o historiador Angel de Altolaguirre y Duvale de Espanha que colaboru nestes livros sabia que estes livros continham documentos falsos, os quais ele disse que "Deviam ter-se eliminado êsses documentos como nulos."(1)
 

Entre toda a controvérsia do Colombo Italiano e do Colon Português uma colecção de livros enormes vem sempre recomendada pelos académicos do mundo como a prova final de quem era realmente o Almirante das Índias e onde nascera. 
Esses livros são nada mais nada menos do que a Raccolta di documenti e studi pubblicati dalla R. Commissione colombiana, pel quarto centenario dalla scoperta dell'America publicada pelos Genoveses para celebrar os 400 anos da descoberta das Américas.
Infelizmente os próprios académicos que nos mandam ir ler esse conjunto da "Raccolta Colombiana", que contém mais de uma dúzia de livros, nunca tal os leram nem sequer os viram - nem de perto nem de longe - porque não lhes interessa saber a verdade mas somente apoiar aquilo que as academias do mundo decidiram ser "a verdade".
Eu, pelo contrário, como procuro a verdade sem algum preconceito vou ler todos os livros que me indicam conter algo de importante e tenho lido várias vezes a Raccolta.
Vários dos livros nesta obra nem sequer tratam do Almirante mas sim doutros temas como Cabotto, Paolo Toscannelli, a declinação magnética, etc. 
A maioria do conteúdo destes livros é uma repetição dos documentos encontrados em Espanha e em livros de autores como Harrisse, sem o qual, aparentemente Génova nada saberia sobre o seu "Colombo Genovês."
Incrivelmente por 400 anos não existia em Génova uma só genealogia do seu grande herói. Pois por 4 séculos ninguém por lá sabia de onde veio nem quem era esse "Colombo." Era tanto desconhecido em Génova a ideia que o Almirante foi um Colombo de Génova que teve que ser um Americano, Henry Harrise, quem despertou o interesse pelo tema naquela cidade no século XIX.
No livro mais importante nesta Raccolta, (o único que interessa já que os outros uns são repetição de documentos em Espanha e outros fora do tópico) aquele que contém os 77 documentos, que segundo os historiadores do mundo contém a "prova", não vem uma só imagem desses documentos. Em vez disso, vem uma transcrição e uma legenda apontando para onde o documento deve ser encontrado. Parem e pensem! O mais importante que se buscava com esta obra (titulada "Recolha de documentos...") era mostrar a documentação de Génova mas não se mostra a imagem de um só desses 77 documentos sobre a família de tecedores de lã de Génova e Savona. É como se esses documentos não existissem. 
Pelo contrário esforçaram-se para meter imagens das cartas originais do Almirante que se encontram em Espanha como se essas fizessem parte da prova de alguma coisa.
Não duvido que a Commissione colombiana que trabalhou nesta obra sabia muito bem aquilo que fazia quando decidiu não incluir facsimiles dos supostos documentos de Génova e de Savona. Pois se esses documentos deveras existem seria muito mais fácil para investigadores como eu apontar as falsidades olhando para uma imagem em vez de uma transcrição. Ao mesmo tempo uma imagem poderia facilmente mostrar se os autores estão ou não a impor uma sua imaginada interpretação em vez de uma verdadeira transcrição.
Certo é que qualquer investigador que folhear estes livros sem estar ciente de outros factos, acreditará somente pelo peso deles, uns 40Kg, pelo tamanho deles, uns 60cm, e pela forma em que os autores escrevem como se não houvesse nenhuma duvida reforçando o seu preconceito do "Colombo Genovês."  É também de maravilhar uma famiíia tão pobre e tão insignificante na sua sociedade como era a famiíia Colombo da Raccolta conseguir  ter tantos documentos sobre si nos arquivos!!!
Estes livros foram publicados para convencer o mundo que o 1º Almirante das Índias era um Colombo tecelão da Génova e nada mais. 
Como é que acham que os autores da Raccolta conseguem provar que o seu Colombo tecelão da Génova era a mesma pessoa que o 1º Almirante das Índias? Simples. Eles baseiam-se num documento em que o Almirante disse que tinha nascido em Génova. Que documento é esse? É o falso Mayorazgo de 1498!!!! 
Incrível. Não provam que o Almirante era de Génova com os 77 documentos encontrados em Génova mas sim com um só documento em Espanha. Utilizaram um documento falso como a pedra chave de toda esta recolha de documentação e por isso não é de admirar que nada encaixe e que no fim o novelo todo se desenrola frente a alguém que conheça os factos.
Não é um trabalho sem preconceitos nem imparcial. Se fosse os seus autores teriam usado um pouco de critica e bom senso. Mas já que não foi assim vejo-me forçado a meter aqui uns poucos comentários sobre alguns desses documentos.
O documento acima prova que o Domenico Colombo e seu pai Giovanni Colombo eram simples tecedores de lã.
O documento acima prova que o Domenico Colombo era tão pobre que não podia paga umas meras 15 liras (77 Euros de hoje)  en 1464.
O documento acima prova que o Domenico Colombo era tão imcapaz de gerer os seus negócios que foi preso, tendo sido posto em liberdade a 22 de Setembro de 1470.
O documento acima prova que o laneiro Cristoforo Colombo era tanto pobre como seu pai Domenico Colombo que em vez de pagar a insignificante divida de seu pai (230 Euros de hoje) pôs-se como devedor em lugar de seu pai.
O documento acima prova que o Cristoforo Colombo era verdadeiramente um "laneiro de Génova" em 1472 e que não era nenhum comerciante, navegador ou burguês como os historiadores portugueses têm inventado e tentado apoiar. NOTEM ainda que os autores parecem não acreditar que este e outros dos documentos apresentados aqui estejam nos archivos. Pois apontam para autores que mencionam os documentos como se a transcição nalgum livro vale mais que o original no archivo.
O documento acima prova que o laneiro Domenico Colombo continuava a viver como caloteiro sem meios para poder pagar as suas miseraveis dividas em 1472.
O documento acima prova que o laneiro Domenico Colombo continuava a viver como caloteiro sem meios para poder pagar as suas miseraveis dividas em 1473.
O documento acima prova que outra vez em 1474 o laneiro Domenico Colombo continuava a viver como caloteiro sem meios para poder pagar as suas miseraveis dividas.
O estranho documento acima, (que parece não se encontrar em lado nehum) prova que o laneiro Domenico Colombo fez uma procuração ao seu filho Bartolomeo Colombo. Aqui estamos perante uma polémica. O Bartolomeo Colombo, segundo os historiadores, estava a viver como cartógrafo em Lisboa já antes do Cristoforo Colombo ir lá ter. Então o papá faria uma procuração para um filho que não estava na provincia e em vez de fazer para o filho mais velho, o Cristoforo que também não estava na provincia, faze-a para outro filho mais novo. Então proque não fez a procuração para o Giacomo ou para a filha Bianchinetta, ou para o seu próprio irmão, o laneiro Antonio Colombo, em vez de fazer-la para um filho que estava ausente já por uma década?
O documento acima prova que o laneiro Domenico Colombo era tão imcompetente que em vez de ensinar o seu próprio filho como tecer lã, teve que pôr o Giacomo Colombo de 16 anos como escravo em casa de outro tecedor de panos para que o ensinasse como tecer.




 O documento acima prova que o laneiro Giacomo Colombo andava a tecer lã em Savona em 1491 enquanto os Colons passeavam pelas cortes da Europa e que a pobre Bianchinetta era viva na altura em que os Colons faziam os seus testamentos em Espanha nos quais nem ela nem o seu filho Pantalino são mencionados.
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Sapeva ben dunque Antonio Gallo che cosa diceva, quando svelò pel primo la professione di tessitore di panni di lana in Domenico Colombo, e quella di cardatori od aiuti nel lanificio toccata ai figli Cristoforo e Bartolomeo, e notò la loro piccola istruzione, dicendoli «parvis letterulis imbuti»  —pg 24
Però se l’attestazione di Diego Mendez non serve punto a provare la nascita in Savona di Colombo …Colombo «hera natural de la Saona»    --pg 26
Domenico Colombo disgraziato girando de cittá a cttá, comprando spesso senza pagare, rivendendo o lasciando alla sua morte una terra che in difetto di pagamento gli antichi proprietari cercavano ripigliarsi. Pg 28
Come è naturale de un piccolo cadatore di lana, la puerizia di Cristoforo dovette passare inosservata, no potendosi prevedere da sì umili principii tanta gloria avvenire. Il Gallo soltanto sa che esso e il fratello Bartolomeo furono «parvis litterulis imbuti», come portava la loro condizione. Pg 29
Documento savonese, veniva qualificato come «lanerio de Janua”   Pg 133 
(Raccolta di documenti e studi pubblicati dalla R. Commissione Colombiana pel quarto centenario dalla scoperta dell’America, Parte II – Volume III. Roma, Auspice il Ministero della pubblica istruzione, MDCCCXCIIII - 1894)
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 Testatmento der Don Diego Colon, irmão do Almirante, Las Cuevas de Sevilha, 24 de Fevereiro de 1515. Notem que não morreu pobre, mas não enviou um só tostão para a suposta irmã em Génova.
Dexaba dosmill ducados de oro en poder de Juan Francisco de Grimaldo é Gaspar Centurion, é más ochenta ducados en un porta cartas --- pg 184
 Iten, mando que se paguem al padre fray Gregorio, capellan de la señora marquesa de Montemayor, tresmill maravedis en lismona. – pg 193  [A Marqueaa de Montemayor era deveras a Portuguesa D. Isabel de Noronha, bisneta de Enrique II, rey de Castilla e filha de Branca Dias Perestrelo, irmã da esposa do Almirante D. Cristóvão Colon. Era  casada com o Marquês de Montemor, de D: João de Bragança irmão do 3º Duque de Bragança.]
Iten, mado que su paguen á Briolanza Muñiz diéz ducados de oro, en limosna que el dicho señor don Diego Colon mandó que le diesen; é mas, en su nombre (manda Gaspar Gorricio, testamenteiro), le fago gracia  è suelta de siete ó ochomill maravedis que le debia ál dicho señor don Diego por préstamo—pg193
Don Diego Colon dexó en poder de Juan Francisco de Grimaldo é de Gaspar Centurion dosmill ducados de oro de contado – pg 194
Iten, mando que se dén á Juan Antonio Colon cient castellanos de oro – pg 195
Ai da pobre Bianchentta, irmãzinha completamente esquecida dos seus três ricos irmãos Colombos e de seus ricos sobrinhos que nem sequer uma Libra lhe deixaram nos seus testamentos em Espanha.


Testamento feito em 1509 de D. Diogo Colon, 2º Almirante onde deixa filho ou filha como herdeiro provando que não havia nenhum impedimento no mayorazgo de Colón para as fêmeas herdarem. Pois se houvesse impedimento em vez de deixar uma filha por herdeira, D. Diego Colon teria deixado todos os varões ainda vivos: Don Bartolomé Colon, D. Diego Colon e D. Fernando Colon, e só depois é que vinha a filha. Mas não foi assim porque não havia impedimento nenhum da fêmea herdar.
Manda treinta y cuatro. Iten, porque si Dios dispusiere de mi en tiempo que tuviese hijo legítimo sceso y herdero, ó hija herdera, que o fuese de edad para la gubernacíon y regimiento de mi estado y casa y hacienda, seria y es mi voluta qye en tal caso don Bartolomé Colon mi tio, y faltando él don Diego Colon mi tio, fuese y sea tutor y gobernador y lugrateniente del dicho hijo ó hija… -- pg 177
 Só se não tiver filho ou FILHA então é que deveriam herdar os colaterais:
Y si el dicho don Bartolomé mi tio fuere fallecido, dejo por mi herdero á don Diego Colon mi tio; y si el dicho don Diego mi tio fuere fallecido, dejo por mi herdero el pariente mas próximo á mi linea de los Colones – pg 177
.... aqui todos os tios Portugueses recebem uns tostões menos a pobre e mais necesitada tia em Génova
Manda décima. E mando que de la dicha lismogna del dicho diezmo serán dados por el padre don fray Gaspar, ó por quien de tal cargo tuviese, para las necesidades de la condesa de Benanico mi tia, (1) sobre cien ducados que tiene recebidos, todo lo que faltar para el cumplimiento de lo que yo mandé por una mi cédula.. (NOTA 1) e forse in luogo di «Benanico» è da lagere Benavente, città del regno di Leon … -- pg 174  [A Condessa de Benanico era deveras a Portuguesa Condessa de Penamacor, D. Catarina de Noronha,  bisneta de Enrique II, rey de Castilla e filha de Branca Dias Perestrelo, irmã da Esposa do Almirante D. Cristóvão Colon. Carlos Calado foi o primeiro investigador a notar que BENANICO é uma corrupção de PENAMACOR].
Manda veintiseis. Item mando que á mi tia Brigulaga(1) Moniz serán dados por sus tercios vinte mil maravedis en cada un año mientras que viviere…(1) «Briolanza» cioè Violante – pg 176
Manda einte y ocho. Item mando que por las buenas obras que yo he recibido de doña Ana mi sobrina, mujer del jurado Barahona, -- pg 176
Testamento de Maria de Toledo, Santo Domingo, 27 de Setembro de 1548. 
75. iten. Digo que me parece que á doña Ana Muñiz,(4) que es ama de mis hijos, que por quanto ella es muy buena y ha estado siempre en mi compañia, que le debe dar el almirante mi hijo mil ducados, para ayuda en su casamento(NOTA 4) fosse uma neta de Filipa Moniz? – pg 268
(Raccolta di documenti e studi pubblicati dalla R. Commissione Colombiana pel quarto centenario dalla scoperta dell’America, Parte II – Volume I. Roma, Auspice il Ministero della pubblica istruzione, MDCCCXCVI, 1896)
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Sobre a Filipa Moniz estes enormes livros nada dizem. Apenas duas linhas tiradas do testamento de D. Diogo Colon, 2º Almirante. Nem lhes servia dar noticias ao mundo sobre a nobreza da Filipa Moniz. Pois se dessem essa informação logo o mundo começaria a duvidar deste conto de fadas, o novelo começaria a se desenrolar já em 1892 e a farsa teria terminado. Por se ter censurado a linhagem e laços da Filipa Moniz, tanto em Itália como em Portugal, continuou esta História da Carochinha de pé. Está mais que provado que o Colombo da Raccolta não era um homem que andou nas universidades nem navegando durante a sua juventude, como se sabe que fez o Almirante Colon, o Colombo era nada mais que um pobre artesão sem dinheiro, recursos ou propriedades e andava em Savona e Génova tentando manter a cabeça a cima d'água.
Hoje as coisas começam a mudar porque é facil de ver que o simples e pobre tecelão nunca podera casar com uma nobre da categoria da Filipa Moniz mesmo se ela não fosse comendadora da Ordem de Santiago era tia de grandes nobres do reino, filha, sobrinha e neta de nobres. Descendente de nobres de vários reinos e tão chegada ao trono de D. João II. 
Continuar a insistir que era perfeitamente normal um casamento entre uma nobre e um tecelão pobre, sem posto, sem educação e sem nada, é continuar a meter a cabeça na areia para não ver a verdade. As normas da época eram muito contrárias e não podemos atirar as normas fora só porque os genoveses dizem ter encontrado um, ou cinquenta Colombos que foram tecelões na sua cidade. Que nos interessa que houvesse tecelões em Génova se nada sobre eles encaixa na vida do Almirante? Se não encaixa não se deve forçar a encaixar porque nada bate certo como se pode ver claramente com esta Raccolta.
Livro de Privilégios em que se vê claramente que Colon foi um Vice-rei das Índias. Insistir que um qualquer pobre plebeu artesão seria feito um Vice-rei é dar aos leitores uma história de fantasia desenquadrada dos factos tal como das normas da sua época e roubando a Portugal a honra e glória que sempre mereceu receber deste episódio e missão secreta do misterioso Xpõval Colon em Castela.
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(1) Ver página 14 do In Perpetuam Rei Memoriam por Alexandre Gaspar da Naia que poder ser descarrgado em PDF aqui: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/37382

Os livros da "Raccolta" estão agora acessíveis na "Biblioteca Digital Hispánica". No seguinte endereço e podem descarregar-se todos os volumes em PDF:
http://bdh-rd.bne.es/viewer.vm?id=0000004987&page=1

sábado, abril 04, 2009

COLOMBINADAS (7)

APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO

PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)

Parte 7
(3.3. Colombo em Castela)

Pág. 67 – Em 1485 Colombo partiu apressadamente e em segredo para Castela, ou já com a ideia de apresentar o seu plano aos rivais de Portugal, ou por algum outro motivo relacionado com as suas dívidas ou outros problemas pessoais.
+ O Autor faz esta afirmação de que CC partiu à pressa e em segredo, sem quaisquer provas confirmadas. Quase nada se sabe da vida privada de CC em Portugal, a não ser o que ele próprio escreveu ou o pouco que seu filho Hernando relatou posteriormente na “Historie”, onde refere que “seu pai, com brevidade e em segredo mandou armar uma caravela e fingiu enviá-la com mantimentos para Cabo Verde, mas efectivamente com outro destino – aquele para onde ele pretendia ir. Como os tripulantes não souberam dar conta do recado, regressando ao local de partida depois de vários dias no mar, o Almirante tomou tanto ódio a esta cidade e a este país que decidiu ir para Castela com o seu filhinho”.
Não há sequer nenhum outro indício de que tenha saído à pressa e tampouco se sabe em que data saiu. Aliás, para poder afirmar que CC saiu à pressa, o Autor deveria especificar quando tal teria ocorrido.
Numa carta escrita aos Reis Católicos após CC regressar da 1ª viagem, o Duque de Medinacelli lembrou-lhes que tinha acolhido CC em sua casa durante 2 anos antes de ele estar ao serviço dos reis. Como o primeiro registo de pagamento de serviços data de Fevereiro de 1487 e CC não se dirigiu primeiramente ao Duque, significará que deve ter chegado a Castela no final de 1484.
Já quanto aos motivos da saída, o Autor, sem os conhecer, não se coíbe de adiantar algumas hipóteses que lhe facilitam o encaixe num Colombo genovês, deixando, para este aspecto, de acompanhar integralmente as explicações aduzidas por Hernando Colón.

Págs. 67/68 – Em 1486 Colombo obteve a primeira audiência com os monarcas católicos, em Alcalá de Henares. No ano seguinte, recebido no acampamento de Málaga, ele soube que o veredicto da Junta que Fernando e Isabel tinham encarregado de estudar o projecto, não era mais favorável do que a anterior avaliação efectuada pelos cosmógrafos reais portugueses.
+ CC recebeu, com alguma frequência, e desde as primeiras entrevistas com os Reis Católicos, pagamentos pelas “cosas cumplideras” que fazia para Suas Altezas.
A recusa do seu projecto, foi-lhe comunicada em Málaga, tendo portanto ocorrido nos primeiros dias (4 a 11) de Setembro de 1487, pois foi neste período que a Corte esteve naquela cidade.
Para que CC se deslocasse a Málaga foram-lhe pagos 4 mil maravedis:
1487-08-27 – “En 27 de dicho mes di a Cristóbal Colomo cuatro mil maravedís para ir al Real [de Málaga] por mandado de Sus Altezas; por cédula del obispo. Son siete mil maravedís, con tres mil que se le mandaron, para ayuda de su costa, por otra partida de 3 de julio.” (Libro de cuentas del tesorero Francisco González de Sevilla, in Navarrete, Viajes, tomo II, pag. 4, doc. II, apud Rumeu de Armas, 1982, p. 18).

Apesar de em Málaga lhe ter sido comunicada a recusa do seu projecto, CC ainda recebeu pagamentos posteriores, em dinheiro ou em géneros, no próprio ano de 87, em 88 e em 89:
1487-10-15 – “El dicho día di a Cristóbal Colomo cuatro mil maravedís, que Sus Altezas le mandaron dar para ayuda de su costa, por cédula del obispo.” (Libro de cuentas del tesorero Francisco González de Sevilla, in Navarrete, Viajes, tomo II, pag. 4, doc. II, apud Rumeu de Armas, 1982, p. 24)

1487-10-18 – “Dj mas a [espaço em branco], portugues, este dia treynta doblas castellanas, que Su Altesa le mando dar presente el dotor [fray Hernando] de Talauera; dioselas por mj Alonso de Qujntanjlla; este es el portogues que estaua en el Real; esto fue a la partida de Linares, et su altesa me lo mando en persona …” (Libro de los maravedís que rescibió Pedro de Toledo, de las penas de cámara et del gasto dellos fasta fin de LXXXVII, fl. 6, apud Rumeu de Armas, 1982, p. 29)

1488-06-16 – “En 16 de junio de 1488, di a Cristóbal Colón tres mil maravedís por cédula de Sus Altezas.” (Libro de cuentas del tesorero Francisco González de Sevilla, in Navarrete, Viajes, tomo II, pag. 4, doc. II, apud Rumeu de Armas, 1982, p. 29)

1489, Isabel a Católica - «Cristóbal Colomo ha de venir a esta nuestra corte e a otras partes e logares destos nuestros Reinos... por ende Nos vos mandamos que cuando por esas dichas cibdades, e villas e logares se acaesciere, le aposentedes e dedes buenas posadas en que pose él e los suyos sin dineros, que non sean mesones; e los mantenimientos a los precios que entre vosotros valieren por sus dineros. E non revolvades (no inquietéis) ni con él, ni con los que llevase consigo, ni con algunos dellos roídos.(Cédula de 12 de mayo de 1489, firmada en Córdoba, in Navarrete, doc. dipl. número IV –

Seria habitual que os Reis Católicos sustentassem assim simples aventureiros estrangeiros?

pág. 68 – Por volta de 1487 Colombo estabeleceu-se como livreiro e adquiriu para seu próprio uso privativo vários exemplares agora existentes na Biblioteca Colombina, em Sevilha.
+ Não se crê que existam provas de que CC se tenha estabelecido como livreiro. Quanto aos livros que adquiriu para seu uso, será que indicam onde foram comprados?
É que, também é provável que CC tenha levado consigo todos aqueles livros quando se mudou de Portugal para Castela. No índice de entradas na Biblioteca Colombina, constavam exemplares de livros que tinham pertencido ao Infante D. Henrique...

pág. 68 – Em 1488, D. João II respondeu a uma carta que lhe foi enviada de Espanha, por Colombo, e a qual já não existe actualmente (conteria outra oferta dos seus serviços, após a sua rejeição pelos castelhanos?), com uma intrigante missiva assegurando-lhe que ele era bem-vindo para regressar a Portugal e que os seus serviços seriam reconhecidos. Porém, a única cópia conhecida da carta de D. João II vem do próprio Colombo, e existe portanto a possibilidade de que seja forjada, escrita por Colombo para colocar pressão sobre os Reis católicos, para apoiarem o seu projecto.
(…)
Quando Bartolomeu Dias regressou da sua longa viagem em Dezembro do ano seguinte (1488), ou Cristoforo ou o seu irmão Bartolomeo (o qual, aparentemente, ainda residia em Portugal) estiveram presentes na audiência onde aquele relatou as suas descobertas ao Rei. Ou Colombo tinha regressado momentaneamente a Portugal ou foi o seu irmão quem escreveu nas margens de um dos livros de Cristoforo, a nota acerca da sua presença naquele encontro. (os historiadores não têm sido capazes de identificar a caligrafia e o livro foi provavelmente utilizado pelos dois irmãos).
+ Perante dados concretos – de que uma nota escrita num livro de CC menciona a sua presença em Portugal numa audiência com D. João II e Bartolomeu Dias em Dezembro de 1488; de que CC tem em seu poder uma carta de D. João II, datada de 20 de Março de 1488 a assegurar-lhe que saberá reconhecer os seus bons serviços, pedindo-lhe que venha a Portugal, o Autor tem muitas dúvidas: tem dúvidas quanto à autenticidade da carta do Rei (porque era CC que tinha a carta. Não uma cópia, mas o original, assinado pelo Rei D. João II. Mas o Autor tem dúvidas! Dúvidas que não manifesta sobre cópias de documentos dos quais não existem originais! Desde que aquelas cópias batam certo com a versão do genovês), tem dúvidas sobre se foi Cristoforo ou Bartolomeo quem escreveu a nota nas margens do livro e tem dúvidas sobre qual dos dois esteve presente no encontro.
E porque é que tem dúvidas?
Porque não consegue explicar os factos à luz da versão histórica que pretende defender!
E em que é que se baseia?
«Aparentemente, o seu irmão Bartolomeo ainda vivia em Portugal»
Não há nenhum registo da chegada ou presença do irmão de Colombo em Portugal, mas para o Autor, "aparentemente", ainda cá estava em 1488 e por isso coloca em dúvida os factos inconvenientes.
Tanto mais inconvenientes que a carta do Rei D. João II, escrita em Avis no dia 20 de Março de 1488, (por um mero acaso, ou grande sorte do ‘falsificador’ Colombo, o Rei estava mesmo em Avis nessa data!), foi endereçada não a Cristoforo Colombo mas sim a Cristóvão Colon. Muito inconveniente. E o Rei D. João II trata Cristóvão Colon por ‘nosso especial amigo’ – suprema inconveniência!
Portanto, para o Autor, tudo isto cheira a falso pois baralha a sua defesa do Colombo italiano!
Que o Rei D. João II tenha, de facto, escrito a CC como parte de uma manobra para incentivar os Reis Católicos a apoiar este no projecto de navegar para Poente, deixando os portugueses mais à vontade na rota pelo sul de África, é mencionado pelo Autor como uma possibilidade (colocada por alguns historiadores) mas na qual o Autor não acredita… (Cf. pág. 69)

pág. 70 – Entretanto, em Espanha, Colombo continuou a seguir a corte dos Monarcas Católicos, tentando interessá-los no seu projecto. Nesse período, estando em Córdova, ele conheceu uma mulher chamada Beatriz Rodriguez de Arana, de quem teve um filho em 1488.
+ Será que este Colombo que seguia a Corte dos Reis Católicos por todo o Reino era o mesmo Colombo de quem o Autor diz, na pág. 69, que se estabeleceu como livreiro? Talvez fosse vendedor ambulante...
Carlos Calado
(continua...)

segunda-feira, março 30, 2009

COLOMBINADAS (6)

APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO

PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese
(de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)

(continuação)
Parte 6

(2. Viagens empreendidas pelos portugueses no Atlântico Ocidental)

(2.3. O descobrimento português dos Açores e os mapas de Battista Beccario)

pág. 45 – Por outro lado, se as ilhas imaginárias não são as verdadeiras Açores mas, pelo contrário, as habituais ilhas copiadas pelos cartógrafos de mapa para mapa (ainda que eles próprios, por vezes, duvidassem da sua existência), então as terras efectivas que tinham sido “recentemente descobertas” na ocasião em que este mapa foi desenhado, devem ser, com certeza, as próprias Açores, aqui incorrectamente desenhadas e confundidas com o tradicional grupo de ‘Antilia’.
+ Pois é, aqueles cartógrafos eram uns malandros – desenhavam ilhas imaginárias copiando-as dos mapas já desenhados anteriormente para os novos mapas.
Ao contrário, obviamente, dos cronistas sobre Colombo!... Esses sim, não copiavam crónicas e relatos!

(2.5. Viagens portuguesas desde as Ilhas Atlânticas para o Mar Ocidental)

pág. 47 – Juntamente com Diogo de Teive navegou um andaluz chamado Pêro Vasquez (ou Velasquez) de la Frontera, o qual mais tarde viria a relatar as suas experiências com os portugueses a Cristóvão Colombo, fornecendo-lhe informação que o ajudou a preparar o projecto – como sabemos por várias fontes históricas relacionadas com Colombo (quer pelos seus biógrafos quer pelo processo judicial no qual esteve envolvido). Isto teria ocorrido quando Colombo estava na Andaluzia, atarefado na organização dos navios e tripulação para a sua primeira viagem.
+ Foi este mesmo Pêro Vasquez de la Frontera quem afirmou que tinha navegado para Ocidente em busca de terras com um Infante de Portugal. Mas como é difícil ao Autor libertar-se da história que foi sendo copiada de historiador para historiador, cá vem a tal indicação de Pêro Vasquez ter relatado as suas viagens a CC quando este fazia os preparativos para a partida, na Andaluzia apresentada muito secamente. Como se Pêro Vasquez de La Frontera “apenas” tivesse navegado com Diogo de Teive e fosse a passar pela rua, tendo, por mero acaso, encontrado este genovês Colombo. Não o conhecia de lado nenhum, mas ajudou-o a preparar a sua viagem, relatando a Colombo as experiências com os portugueses … (???)
Uma vez que referiu as fontes históricas a propósito de Pêro Vasquez, porque omitiu a alusão ao Infante de Portugal? Para não ter de identificá-lo? Para não se aproximar de argumentos que ajudam a tese da origem portuguesa de CC? E porque não disse que Pêro Vasquez foi um cavaleiro do Infante D. Henrique? E porque o designou por andaluz? Não seria português, como indicam outras fontes?

pág. 51 – Na verdade, enquanto Colombo fazia as suas várias viagens em nome de Castela, os navegadores portugueses continuaram a velejar para Oeste, como sempre tinham feito. É muito difícil saber se estes marinheiros e exploradores das ilhas portuguesas (quer antes quer depois de 1492) encontraram, ou não, terra, principalmente porque eles eram bastante menos letrados que os navegadores italianos, cujos relatos eram rapidamente impressos e publicados na Europa (como vemos claramente no caso de Colombo).
+ O Autor, tal como outros historiadores portugueses que defendem a teoria do Colombo italiano, não admite que pudesse existir em Portugal uma política de sigilo sobre as explorações marítimas. Por esse motivo, a justificação que tenta encontrar para explicar que não se sabe se foram encontradas terras durante as várias expedições que se sabe terem continuado, é a de que os navegadores portugueses eram menos letrados que os navegadores italianos! Uma afirmação que só não parece ridícula porque, logo de seguida, vem outra inqualificável, ao dar como exemplo o caso de Colombo. Sim, Colombo, esse mesmo a quem o Autor qualifica de tecelão semi-analfabeto incapaz de escrever em italiano e cuja educação principal teve lugar durante o período em que viveu em Portugal (cf. págs. 21-22).

(3. Relação entre Cristóvão Colombo e o seu encontro com a América, e os descobrimentos portugueses)

(3.1. Cristóvão Colombo em Portugal)

pág. 59 – Isto foi, sem dúvida, o que aconteceu no caso de Colombo. Então porque é que o seu projecto foi rejeitado? Um motivo simples sugere-se imediatamente por si próprio: em lugar de aceitar a proposta do forasteiro, que seria obrigado a custear, seria mais fácil e barato para o Rei de Portugal ter os seus súbditos das ilhas a executar tal projecto.
+ Ao considerar que a posição de Colombo perante o Rei de Portugal seria diferente da dos súbditos navegadores que viviam nas ilhas, o Autor ‘esquece’ que, pelo facto de ter feito já várias viagens de exploração com os navegadores portugueses (cf. pág. 51 «Colombo também adquiriu experiência navegando nas rotas portuguesas para a Guiné e para o Atlântico Ocidental onde ele coligiu informação acerca das descobertas portuguesas e adquiriu conhecimentos de navegação»), pelo facto de ter casado com uma portuguesa *, de ter um filho nascido em Portugal *, de ter ficado a pertencer a uma família nobre e prestigiada (que lhe facilitaria o acesso ao Rei, segundo os historiadores), Colombo estava em pé de igualdade com os outros navegadores, pelo que não faz sentido considerá-lo aqui, para esta situação, como um estrangeiro.
Parafraseando o Autor, Colombo era um Português (cf. págs. 18-19 «Uma pessoa era, acima de tudo, ‘um súbdito do Rei de Portugal’, ou do rei de Castela ou de um outro senhor (…) o que era crucial nesse período era o território onde a pessoa vivia e o senhor a quem servia».)
Como se deve interpretar esta profunda contradição do Autor que, sobre a questão da nacionalidade, afirma não ter qualquer relação com o local de nascimento mas sim com o território onde se vivia e o soberano a quem se servia e, perante uma situação que apelava precisamente a esse conceito de nacionalidade, tenta justificar um alegado acontecimento invocando que D. João II recusara porque o sujeito era estrangeiro?

(* Estes dados aplicam-se ao Almirante Colon, pois não há qualquer registo destes factos a propósito do genovês Colombo)

pág. 60 – Devemos também relembrar que, em 1486, quando Colombo já se tinha mudado para Castela após a rejeição do seu plano em Portugal, foram emitidas cartas régias a favor do açoriano Fernão Dulmo (para ser mais rigoroso, o flamengo Ferdinand Van Olmen, residente nos Açores) e do madeirense João Afonso do Estreito, garantindo-lhes permissão para navegar o Atlântico Ocidental (a permissão foi de facto atribuída ao primeiro, que depois recrutou Estreito).
+ O Autor deita por terra (agora noutra perspectiva) o argumento explicativo da pág. 59 para a rejeição do plano de Colombo, ao referir agora que o Flamengo Ferdinand van Olmen recebeu carta régia para navegar o Atlântico Ocidental.
Será que este ‘estrangeiro’ era mais português que o ‘estrangeiro’ Colombo?

(3.2. As ideias por detrás do projecto de Colombo, e a sua rejeição pelos portugueses)

pág. 64 – Tal ideia deve ter estado incubando em círculos geográficos por toda a Europa – isto é dizer, este tipo de noção deve ter estado em maturação na imaginação de homens que tinham acesso à herança da aprendizagem clássica, e até mais entre aqueles que tinham também contactos com o mundo prático dos navegadores e das viagens atlânticas – as quais, na altura, como observámos, eram predominantemente portuguesas. O homem capaz de conciliar as duas estaria bem encaminhado para a descoberta, mesmo que acontecesse por erro.
Porquê então, os Portugueses deixaram isto para os estrangeiros que tinham tido contactos com eles e tinham vivido no seu país, em vez de serem eles próprios a envolver-se?
Porque é que Toscanelli, Colombo e Behaim, e não os próprios navegadores portugueses, que estavam melhor equipados e eram mais experimentados? A resposta é provavelmente porque em Portugal sempre existiu uma grande separação entre os seus navegadores e os seus académicos. Os marinheiros portugueses eram certamente os melhores da sua época, mas os seus conhecimentos eram principalmente empíricos e eles teriam pouquíssimo contacto com os letrados círculos universitários, onde se encontravam os elementos da aprendizagem clássica. O que faltava em Portugal nesse tempo era uma burguesia interessada e capacitada para combinar as técnicas práticas (de viajantes) com os conhecimentos escolares (da geografia clássica).
+ Segundo o Autor, os portugueses tinham a prática de navegação mas faltava-lhes a teoria académica, não conheciam a geografia. Ou seja, os portugueses navegavam à toa, sem objectivos pré-definidos (intriga-nos então como insistiam em chegar à Índia contornando a África, pois não poderiam saber nem imaginar que o continente africano não se prolongava infinitamente para sul…).
Por sorte (…) viveu entre nós alguém com capacidade para conjugar o conhecimento empírico com o conhecimento académico da Geografia clássica. Esse alguém, segundo o Autor, foi Cristoforo Colombo.
Mas… não afirmou anteriormente o Autor que a Colombo faltava experiência (cf. pág. 61 - «A falta de experiência de Colombo foi certamente uma das razões pelas quais a sua proposta de navegar para a Índia pelo Oeste foi recusada ou adiada pelo Rei de Portugal, mas não foi provavelmente a principal razão».) e também que chegou a Portugal praticamente analfabeto e foi cá que efectuou a sua aprendizagem (Cf. págs. 21/22 - «É verdade que Colombo não escrevia (e provavelmente não falava) nenhum dos numerosos dialectos italianos da época, especificamente aqueles de ao redor de Génova»)? Pelos vistos, na perspectiva do Autor, estes estudos avançados em Portugal destinavam-se apenas a estrangeiros como Colombo…

pág. 66 – Como mencionado no capítulo anterior, em 1474, ou por sua própria iniciativa ou em resposta a anterior pedido de informação, Toscanelli escreveu uma carta ao seu amigo Fernão Martins, cónego de Lisboa, e por seu intermédio, para a corte portuguesa, propondo uma viagem no sentido Oeste para alcançar os confins da Ásia de marco Pólo. Parece que incluiu um mapa para ilustrar a sua proposta, mas este perdeu-se. Porém, uma cópia da carta para Martins sobreviveu, escondida dentro dum exemplar da Historia Rerum, detido pelo próprio Colombo.
Como se podem interpretar estes factos?
Ambos os biógrafos de Colombo, seu filho Fernando e Bartolomé de Las Casas, se referem a este episódio e citam a carta de Toscanelli para Martins, adicionando-lhe uma segunda carta, agora endereçada directamente a Colombo, na qual Toscanelli repete os seus pontos de vista e encoraja o seu correspondente a pô-los, ele próprio, em prática. Há bons motivos para duvidar da autenticidade desta segunda carta, a qual pode, na verdade, ter sido construída a partir da primeira; mas há reais possibilidades de que ela seja verdadeira.
Os dois biógrafos sustentam que Colombo levou a sugestão de Toscanelli muito a sério e que ela teve considerável influência no desenvolvimento dos seus planos. Estranhamente, porém, Colombo nunca mencionou a carta e, contrariamente ao que se possa esperar, nunca invocou a autoridade do letrado florentino para justificar a ideia de navegar para ocidente. Isto provavelmente porque ele não podia permitir-se que se soubesse que tinha visto a carta de Toscanelli. É possível que a carta envolvesse o que se pode classificar de ‘informação confidencial’
+ O Autor considera que há bons motivos para duvidar da segunda carta, a de Toscanelli para Colombo, que estava em Lisboa, e também acha estranho que Colombo nunca a tenha mencionado nem invocado a autoridade do letrado florentino.
O facto é que não é nada conveniente para os defensores do Colombo italiano, que Colombo tenha recebido em Lisboa, uma carta de Toscanelli, em 1474.
Pois se a sua versão da história afirma que ele cá chegou, milagrosamente náufrago, em 1476 … e era semi-analfabeto.
Nesta carta de Toscanelli não se vê o nome do destinatário na cópia conhecida pelos historiadores, mas ela menciona a grande nação portuguesa do destinatário, e faz referência à carta enviada anteriormente a Fernão Martins, “alguns dias antes”.
Sendo a carta para Fernão Martins datada de 25 Junho de 1474, então a segunda carta foi escrita também em 1474.
Para tentar justificar que a carta escondida no livro de CC não será autêntica, o Autor invoca que CC nunca a ela se referiu e que provavelmente Colombo teve acesso não autorizado à primeira carta e fez uma cópia do seu conteúdo, que a corte portuguesa queria manter confidencial.
Portanto, segundo o Autor, Colombo ter-se-ia dado ao trabalho de copiar, com modificações, uma carta contendo informação confidencial, mas nunca revelou que a tinha, embora a tenha guardado até ao final da sua vida. É um argumento pouco sólido, pois ou Colombo copiaria apenas os dados que lhe poderiam ser úteis ou copiaria integralmente o original. Adulterar a cópia da carta, simulando que era uma carta dirigida a si, só faria sentido se Colombo tivesse apresentado essa cópia como suporte para o seu projecto.

Pág. 67 – Em suma, o que parece muito claro é que, naqueles anos, a possibilidade de uma bem sucedida procura da Índia pelo Oeste, estava no ar. Tudo dependeria do grau de precisão na estimativa das distâncias a percorrer. E, como vimos, Colombo pensou que elas eram bem menores do que efectivamente eram. (…)
Como também vimos, simultaneamente isto foi provavelmente a principal razão para a rejeição da sua proposta em Portugal. Os cosmógrafos reais, que tinham acesso não só à geografia ptolomaica mas também aos mais avançados estudos da astronomia árabe e judaica na Península, e acima de tudo à experiência prática dos próprios navegadores portugueses, estavam provavelmente cientes que as estimativas de Colombo eram fortemente imprecisas.
+ Segundo o Autor, a hipótese de se poder chegar à Índia pelo Poente já andava no ar, mas Colombo estava enganado na distância e a sua proposta foi rejeitada em Portugal porque os cosmógrafos do Rei, com os seus conhecimentos de geografia clássica, com os mais avançados estudos árabes e judaicos e acima de tudo com a experiência prática das navegações portuguesas, sabiam que Colombo estava errado e que a Ásia ficava mais distante.
Espantoso! Na pág. 64 o Autor defendia que existia uma grande separação entre os navegadores práticos e os académicos portugueses e que por esse motivo teriam de ser os estrangeiros a desenvolver a ideia de chegar à Ásia pelo Poente, e afirma agora que com os seus conhecimentos académicos e com a experiência prática, os portugueses sabiam que Colombo estava errado.

Juntando alguns dos pontos apresentados pelo Autor, pode-se concluir que:
1) O Rei português sabia que deveria haver terras a Ocidente (Cf. pág. 60 - «emitiu cartas régias para Fernão Dulmo procurar terras a Poente»)
2) O Rei português sabia que essas terras não poderiam ser a Ásia, que ficava muito mais distante, (Cf.. pág. 67, acima)
3) Havendo terras que não poderiam ser a Ásia, eram outras terras, ainda não conhecidas.

sexta-feira, março 27, 2009

COLOMBINADAS (5)

APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO

PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)

Parte 5

pág.37/38 – No mesmo ano ou pouco depois, Cristoforo Colombo, perto dos trinta anos de idade e residindo em Portugal, casou com Filipa Moniz Perestrelo, filha do capitão Bartolomeu Perestrelo, donatário da pequena ilha de Porto santo, assim cimentando as suas relações com os círculos portugueses e com a comunidade de imigrantes italianos (os Perestrelos eram descendentes directos dos Pallastrelli, uma família nobre italiana de Piacenza, perto de Génova). Desta forma Colombo teria aprendido português e ficado imerso em cultura portuguesa.
+ Já era bem fraquinho o argumento anteriormente expresso pelo Autor, de que Colombo falava e escrevia português (com castelhanismos) devido ao período em que aqui viveu. Isso correspondia a quase uma dezena de anos. Mas agora vemos que esse período de aprendizagem foi ainda reduzido para metade. Quem acredita que 4/5 anos chegaram para esquecer a sua língua natal e aprender muito bem a língua portuguesa?

pág. 38 – Embora ocasionalmente eles tenham viajado para e permanecido no arquipélago, o casal provavelmente viveu principalmente em Lisboa, pois a mulher de Colombo não tinha direitos sobre a capitania da ilha (que na época estava em declínio e o seu comando nas mãos de um português chamado Correia da Cunha, casado com uma outra filha de Bartolomeu Perestrelo). Porém é possível que o navegador passasse umas consideráveis temporadas em Porto Santo e na vizinha ilha da Madeira. Pouco tempo depois do casamento nasceu um filho, chamado Diogo.
+ O Autor continua a transcrever relatos apenas baseados em suposições de outros historiadores anteriores, na maioria estrangeiros sem conhecimento profundo da realidade portuguesa. Neste parágrafo utiliza “provavelmente” e “é possível”. E são estas meras hipóteses e suposições que vieram a constar na História do verdadeiro descobridor. (Pedro Correia da Cunha deixou de ser capitão de Porto Santo no momento que seu cunhado, Bartolomeu Perestrelo II tomou posse da capitania a 15 de Março de 1473 o que mostra uma falta de rigor naquilo que o autor escreve. Nem a história de Portugal conhece.- Manuel Rosa)

pág. 38 – Através das suas relações, Colombo coligiu informação acerca das viagens e vivências das ilhas portuguesas, com a sua sogra a dar-lhe os textos e os mapas que tinham pertencido ao seu marido, e o seu cunhado a contar-lhe as lendas transmitidas entre os colonizadores do arquipélago, referentes à existência de terras a Ocidente.
+ Embora tenha continuado a transcrever o mesmo tipo de relatos fantasiados, o Autor já não se preocupou em indicar ‘probabilidades’ e brinda-nos com afirmações sem qualquer base documental.

pág. 39 – Colombo provavelmente viajou as rotas portuguesas para a Guiné e para o Atlântico Ocidental, recolhendo informação acerca das descobertas e adquirindo conhecimentos de navegação que o ajudariam a amadurecer o seu plano de navegar para Ocidente (conhecemos isto pelos seus escritos posteriores)
+ Ironicamente, sobre factos relatados pelo próprio Almirante Colón, o Autor mantém dúvidas sobre a efectividade das suas viagens nas rotas portuguesas. É que dificilmente se explica como teria o italiano Colombo acesso a navegar nos navios portugueses dos descobrimentos. Mas não há qualquer dúvida de que o futuro Almirante Colón tenha navegado até África, pois no Diário da sua primeira viagem ao Novo Mundo assim o escreveu por várias vezes. (É incrivel como os historiadres decidem por si sem mais provas no que acreditar e desacreditar nos escritos do Almirante. Tudo o que não lhes sabe bem e possa ser visto como apontando para uma pessoa de linhagem nobre, com décadas de estudo e bem integrado na sociedade portuguesa é descartado logo sem mais discussão e aquilo que lhes dá razões para impingirem os seus preconceitos aceitam logo sem qualquer dúvida.- Manuel Rosa)

pág. 39 – Foi pois provavelmente no mesmo ano que Colombo deixou Portugal apressadamente e em segredo para Castela, ou para apresentar o seu plano aos rivais Castelhanos, ou por alguma outra razão relacionada com dificuldades na sua vida privada.
+ Continua o Autor apenas no campo das hipóteses. Como pode o Autor afirmar que Colombo deixou Portugal apressadamente e em segredo, se não existe sequer qualquer registo da presença dum Colombo em Portugal, e o Autor não tem a certeza que foi nesse ano que deixou Portugal?

pág. 39 – Ele foi para a região andaluza de Huelva, perto do sul de Portugal, onde vivia uma irmã de sua mulher, casado com um certo Miguel Molyart. No mesmo ano ele chegou ao Mosteiro de La Rábida na Andaluzia, onde beneficiou da protecção dos frades e mais tarde da do Duque de Medina-Celi e de mercadores genoveses em Sevilha.
+ Vale a pena referir que o Mosteiro de La Rábida se localiza mesmo frente a Huelva, na margem oposta do rio, mas a expressão utilizada transmite-nos uma ideia de maior distância.
CC gozou da protecção do Duque de Medinaceli, o qual escreveu aos Reis Católicos, após a viagem da descoberta, para que tivessem em consideração o facto de ele ter albergado CC em sua casa durante dois anos antes de ele entrar ao serviço de suas altezas. O primeiro registo de pagamentos efectuado por ‘suas altezas’ a CC (identificado como ‘el portugués’) data de Fevereiro de 1487 pelo que, com base na carta do Duque, conclui-se que CC esteve em sua casa desde início de 1485, tendo portanto chegado a Huelva nos finais de 1484 (ou, o mais tardar, logo no início de 1485).
Isto contraria as datas avançadas pelo Autor sobre os últimos anos de CC em Portugal e respectivos acontecimentos, todos eles baseados em suposições e probabilidades recolhidas nos fantasiados relatos de Samuel Eliot Morison & Cia. (Novas invenções; os mercadores não eram genoveses mas sim todos Florentinos, Bartolomeu Marchioni, Juanoto Berardi, Francisco de Bardi, e Amerigo Vespucci e não estavam em Sevilha quando Colon lá foi parar mas sim, todos menos Vespucci, seguiram de Lisboa depois de Colon.-Manuel Rosa)

(continua...)
Carlos Calado

segunda-feira, março 23, 2009

COLOMBINADAS (4)

(continuação)
Parte 4

APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO
PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)

(1.7. Informação fornecida por Rui de Pina e outros cronistas portugueses)
pág. 34 – Todas as indicações, antigas e modernas, que mencionámos até agora, podem ser ainda mais sustentadas pelo chamado “Documento Assereto”, encontrado no Arquivo Notarial Estatal em Génova em 1904, num período em que a identidade de Colombo era um assunto altamente controverso. O documento é um registo notarial datado de 25 de Julho de 1479, o qual contem material que pode completar o elo em falta na cadeia, lançando luz sobre um período menos conhecido da vida do navegador e estabelecendo uma clara identificação entre o ‘Colombo’ nascido dum tecelão genovês em 1451 (acerca do qual existem documentos cuja autenticidade não está em causa) e o navegador ‘Colom’ que encontramos mais tarde a viver em Portugal.
pág. 35 - A autenticidade deste documento pode ser (e tem sido) contestada, mas mesmo se este ou qualquer um dos outros documentos que têm sido questionados tiver que ser abandonado, a verdade é que em conjunto eles constituem uma série que, apesar de não muito numerosa, é certamente suficientemente extensa para obrigar qualquer académico honesto a aceitar que Génova foi o local de nascimento do navegador que mais tarde apareceu em Portugal e daqui passou ao serviço de Castela para realizar a sua famosa viagem.
+ Neste caso, perante a “milagrosa” aparição de um documento que poderia pôr fim às polémicas, mas acabou por ser tão fortemente questionado, o Autor decide considerar a hipótese de ele ter de ser abandonado, mas refere que ainda sobrarão todos os outros. Só que não existe nenhum documento isento de dúvidas e este surgiu como sendo a “tábua de salvação”.
Conclui o Autor que o conjunto de documentos é suficientemente extenso pelo que, mesmo que alguns tenham de ser abandonados, o académico honesto é obrigado a aceitar que Génova foi o local de nascimento do navegador.
É, no mínimo, uma conclusão pouco académica, pois todo o estudioso honesto, perante a ‘obrigação’ de aceitar conclusões forçadas com base numa série de documentos dos quais alguns tenham de ser abandonados por se verificar a sua falsidade, só tem um caminho a seguir: ser mais exigente; não se sujeitar a que lhe ‘imponham’ o veredicto, e começar do zero, perscrutando, ele próprio, minuciosamente todos os documentos.

1.8. A juventude de Colombo e a sua chegada a Portugal
pág. 36 - O futuro sujeito de tanta controvérsia nasceu em 1451 em Génova, provavelmente próximo duma rua chamada ‘Olivella’. Ele era o filho dum humilde tecelão chamado Domenico Colombo e duma mulher chamada Susanna Fontanarossa ou Terrarrossa e foi baptizado de Cristoforo (embora haja quem não aceite que esta criança é o navegador que viveu em Portugal e Castela)
Cristoforo tinha uma irmã e três irmãos, dos quais apenas dois sobreviveram e cujos nomes são os mesmos que os dos irmãos que mais tarde ele chamou para se lhe juntarem.
+ Quando começa a construir a personagem do Colombo genovês, as certezas do Autor transformam-se num “provavelmente”, num dilema e numa afirmação incorrecta:
-nasceu provavelmente próximo duma rua chamada Olivella;
-a sua mãe chamava-se Fontanarrossa ou seria Terrarrossa;
-os nomes dos irmãos genoveses eram os mesmos dos irmãos que se lhe juntaram mais tarde (ao Almirante Colon).
Não sendo sequer importante saber em que rua nasceu Cristoforo, o Autor debate-se com as várias localidades que reclamaram ser o berço do tecelão e com a profusão de documentos incompatíveis entre si.;
Já quanto à mãe de Cristoforo, o Autor enfrenta o dilema da escolha: seria a Susanna Fontanarrossa casada com o Domenico Colombo ou seria a Terrarrossa, conveniente para explicar um escrito atribuído a Bartolomeu onde surge a palavra Terrarrubra?
E quanto aos nomes dos irmãos, a afirmação do Autor é incorrecta. Os dois irmãos de Cristoforo eram Bartolomeo e Giacomo. Os irmãos que acompanhavam o Almirante Colon eram Bartolomeu e Diego. O equivalente castelhano de Giacomo seria Jaime; o equivalente italiano de Diego seria Didacus.
(Nota: recentemente em 2006, vários anos depois da publicação deste livro em 1992, foram efectuados pela Universidade de Granada, exames antropomórficos sobre as ossadas de Diego Colon, os quais concluíram, cientificamente, que este morreu com uma idade não compatível com a idade que teria o Giacomo Colombo genovês).

pág. 36 – Tal como o seu irmão Bartolomeo, o jovem Cristoforo pode logo ter começado a trabalhar a bordo de embarcações em Savona ou mesmo em Génova, quando tinha apenas dezanove anos de idade.
Os filhos estão também registados na documentação, envolvidos em actividades similares às de seu pai, mas o cronista genovês António Gallo viria mais tarde a escrever que os jovens Colombo combinavam a actividade de tecelão com actividades marítimas e comerciais.
+ É uma hipótese falaciosa, pois o Autor afirma que o jovem Cristoforo pode ter feito o mesmo que o irmão Bartolomeo, mas não existe qualquer prova de que Bartolomeo o tivesse feito em Génova ou Savona. O cronista genovês António Gallo, escreveu que os jovens Colombo combinavam a actividade de tecelão com actividades marítimas e comerciais, pretendendo fundir estes personagens com os irmãos Colon, mas as suas palavras (ou pretensas palavras, pois trata-se de duas folhas soltas insertas numa colectânea publicada já no séc. XVIII) mostram que isso não passa de uma tentativa forçada:
«Os irmãos Cristoforo e Bartolomeu Colombo, lígures de nação, nascidos em Génova com origem plebeia, e que viviam do comércio da lã, em que o pai foi tecelão e os filhos, num tempo, cardadores, alcançaram em toda a Europa, nos tempos a que chegámos, uma grande celebridade pela sua coragem e por um descobrimento que será um marco na história da humanidade».
Ora Bartolomeu Colon não participou no descobrimento, e só foi juntar-se ao irmão Cristóvão Colon, na ilha Hispaniola, quase 2 anos depois da descoberta. Já o Almirante lá estava pela segunda vez.

pág. 37 – A primeira viagem que se conhece ao jovem Colombo foi feita em 1474-1475, numa expedição comercial no Mediterrâneo à ilha grega de Quios, onde os genoveses tinham interesses económicos. Em 1475-1476 Colombo, agora com 24-25 anos, provavelmente navegou numa frota de guerra genovesa ao serviço de Renato de Anjou, no Mediterrâneo Ocidental (…) No mesmo período, sabe-se de Colombo num esquadrão genovês que foi atacado ao largo do cabo de S.Vicente (Portugal) pelo corsário Guillaume de Caseneuve, conhecido como ‘Colombo-o-Velho’. O seu barco foi afundado e ele teria chegado a Portugal em 1476, provavelmente a nado.
+ O Autor escolhe a data de 1474/75 para fixar uma expedição comercial genovesa à ilha de Quios, na qual navegaria Colombo, sem qualquer prova de que teria ocorrido nessa data. O Almirante Colon escreveu que tinha viajado a Quios, mas não referiu a data nem qualquer expedição genovesa.
Da mesma forma, Colon escreveu que tinha colaborado com Renato de Anjou e o Autor conclui que ‘provavelmente’ navegou numa frota de guerra genovesa ao serviço de Renato de Anjou em 1475/76, para depois referir que, pela mesma altura, consta que estaria num esquadrão genovês atacado próximo do cabo S. Vicente, no tal episódio caricato que traz Colombo até Portugal, possivelmente a nadar.
Ou seja, zero certezas, mil confusões. Ainda aumentadas pelo Autor ao escrever que a baralhação de nomes entre Coullon (Colombo-o-Velho) possível protagonista do ataque ao esquadrão genovês e Colombo-o-Novo (John Bissipat) protagonista numa batalha naval contra venezianos em 1485, levou alguns a confundir a identidade do Almirante Colon com a de um dos corsários Colombo e que isto contribuiu para a orgulhosa afirmação feita pelo filho do humilde taberneiro, ao dizer que ele não era o primeiro Almirante da sua família.
É absolutamente inconcebível que o Autor impute uma afirmação do Almirante Colon, quando disse não ser o primeiro Almirante da família, ao alegado facto de ele ter sido induzido em erro ou tentação, por “alguns” (refere-se aos biógrafos Bartolomé de las Casas, Hernando Colon e a outros) que confundiram a sua identidade com a dos corsários Colombo e indicaram a data de 1485 para o tal naufrágio.
(Cf. pág. 37- «Biógrafos posteriores, Hernando Colon e Las Casas, fizeram muita confusão nos seus relatos deste período e colocaram Colombo numa outra batalha naval travada mais tarde, em 1485, entre venezianos e outro corsário, também conhecido por Colombo (mas ‘o-Novo’). Mas também há aqueles que tentaram usar isto para confundir ainda mais a questão da identidade de Colombo, avançando teorias que o identificaram com um dos corsários Coullon. Na verdade, a semelhança de nomes e a proximidade das datas deve ter sido uma grande tentação – e também terá contribuído para a orgulhosa afirmação feita uma vez pelo filho do humilde taberneiro…»)
Ou seja, para além dos já conhecidos atributos do Almirante Colon, o Autor descobriu-lhe um outro: futurologia – que lhe permitiu adivinhar o que os seus biógrafos escreveriam umas décadas depois dele morrer.

pág. 37 –Conseguindo a sua posição nos mundos da navegação comercial portuguesa e Atlântica, diz-se que Colombo navegou até Inglaterra em 1477 (embora isto seja altamente contestado) e até, subsequentemente, desde Bristol até à Islândia (o que é ainda menos provável).
+ Tem razão o Autor. Quem participou nessas viagens a Inglaterra e Islândia foi o futuro Almirante Colón, como escreveu nas suas anotações. O Colombo genovês continuava tecelão e taberneiro na sua terra, pois nada consta sobre a sua entrada nos mundos da navegação comercial portuguesa e Atlântica.

pág. 37 – Neste período as exportações de açúcar a partir da Madeira estavam a aumentar. Por volta de 1478-79, Colombo provavelmente navegou até à ilha da Madeira, como agente para o mercador genovês Paolo di Negro.
+ E repentinamente, o Autor transmuta o seu tecelão analfabeto (lembremo-nos que afirmou anteriormente que Colombo não escrevia genovês por não ser um idioma escrito, nem italiano porque nunca o aprendeu) em agente comercial. Como seria que o analfabeto lidava com a papelada do negócio?

pág. 37 - O irmão de Colombo, Bartolomeo, provavelmente juntou-se-lhe em Portugal, aparentemente trabalhando como cartógrafo em Lisboa.
+ Mais uma frase que condensa uma mão-cheia de nada: “provavelmente” e “aparentemente”.
Ou seja, sem quaisquer provas ou registos algum historiador anterior escreveu aquilo de que o Autor agora se faz eco. Não se conhece qualquer carta cartográfica assinada por Bartolomeo Colombo, nem sequer é minimamente verosímil que este outro tecelão “chegasse” a Portugal e se transformasse num perito em cartografia.

(continua...)
Carlos Calado

quinta-feira, março 19, 2009

COLOMBINADAS (3)

(continuação)
Parte 3

APRECIAÇÃO CRÍTICA AO LIVRO

PORTUGAL AND THE EUROPEAN DISCOVERY OF AMERICA
Christopher Columbus and the Portuguese (de Alfredo Pinheiro Marques, Ed. INCM 1992)

(1.3. O seu estranho idioma)
pág. 21 - O ‘idioma pessoal’ de Colombo era uma mistura, razoavelmente desinibida e prática, de vários elementos (empregando frequentemente uma espécie de denominador comum entre as várias gramáticas e ortografias dos idiomas em questão), mas, segundo o especialista espanhol neste problema, Menendez-Pidal, nos diz e tal como Consuelo Varela e outros confirmaram recentemente, o seu principal conteúdo era claramente Português.
De facto, Colombo não falava nem escrevia correctamente nenhum idioma em concreto.
pág. 22 – Talvez não seja tão estranho que um italiano que deixou o seu país quando era ainda um jovem não fosse capaz de escrever adequadamente na sua língua natal. Dado que o dialecto Genovês não tinha forma escrita, é bastante improvável que ele pudesse ter aprendido a escrevê-lo; já quanto ao Italiano literário, segundo Menendez-Pidal, é improvável que ele pudesse fazer mais do que apenas ler, e mesmo isso, faria mal. Embora ele tivesse sido influenciado pelas suas origens burguesas italianas, a sua principal educação teve lugar durante o longo período que viveu em Portugal.
+ Por estas afirmações do Autor podemos então concluir que não aprendeu a escrever o dialecto genovês (porque não tinha forma escrita), nem o Italiano literário; ou seja, o jovem Cristoforo Colombo quase não aprendeu a escrever (Marianne Mahn-Lot, em “Portrait historique de Christophe Colomb” escreve que ele teria aprendido uns rudimentos de latim «probablement une teinture de latin – connaissance indispensable aux cartographes, qui transcrivaient dês légendes explicatives en cette langue») .
Mesmo aceitando-se que chegou então a Portugal com 24 ou 25 anos, como afirma o Autor, teve aqui a sua principal fase de educação durante o “longo período” de 9/10 anos.
Génio dos génios, o pouco letrado, quase analfabeto Cristoforo Colombo terá frequentado alguma espécie de ‘escola primária para adultos’ para aprender a escrever?
E para não perder tempo, fê-lo simultaneamente com os estudos mais avançados em Cosmografia, Geografia, Latim, Hebraico, Navegação, Teologia, etc. tendo ainda muito tempo de sobra para participar nas viagens portuguesas de descobrimentos e exploração que se prolongavam, naturalmente, por vários meses; nesse período também casou, provavelmente em 1479 e foi viver uns tempos na Madeira e em Porto Santo…
O leitor acha que isto é mesmo verosímil?

pág. 22 – A verdade, como afirmei, é que as principais formas encontradas na sua escrita mantêm-se Portuguesas. O que é ainda mais estranho é que mesmo na sua correspondência enviada ao Embaixador de Génova, o italiano Frei Gaspar Gorrício, ao seu filho Diogo e ao seu irmão Bartolomeu, ele sempre utilizou aquela sua linguagem híbrida em lugar de o fazer em Italiano. Já não saberia como escrever em Italiano? Nunca aprendeu a escrevê-lo?
+ Que CC escrevesse naquela sua linguagem fortemente Portuguesa ao seu filho Diogo poderia compreender-se, mas mais lógico seria se o fizesse em Castelhano, já que Diogo foi para Castela quando tinha apenas 4 ou 5 anos de idade. Para o seu irmão Bartolomeu é menos compreensível que não o fizesse em Italiano; mas para o Embaixador genovês é mais do que estranho que CC escrevesse na sua linguagem fortemente Portuguesa.
Mas o Autor não retirou quaisquer conclusões desses factos muito estranhos…
Nota: Corrija-se o nome do Embaixador de Génova indicado pelo Autor, que não era Frei Gaspar Gorricio, mas sim Niccolo Oderigo. CC também enviou cartas a Gaspar Gorricio, e também não as escreveu em Italiano.

pág. 22 – Porém, vale a pena salientar, em relação com as origens de Colombo, que o facto de se encontrarem, por vezes, algumas poucas formas Italianas e Genovesas nos seus escritos, seria dificilmente explicável se Colombo nunca tivesse tido nenhum contacto com a Ligúria.
+ Sobre a existência de meia dúzia de palavras com laivos de Italiano, alinhavadas numa tentativa de frase sem qualquer nexo, já o Autor tira conclusões: «Colombo teve que ter algum contacto com a Ligúria.»
E porque não? CC não casou numa família com origens italianas, tal como o Autor fez questão de referir ao afirmar (pág. 21) que os círculos de imigrantes italianos (onde inclui os Perestrelos) naturalmente falavam na língua do país de acolhimento (Portugal)? Não navegou pelo Mediterrâneo? Seria necessário mais do que esses contactos para aprender meia dúzia de palavras italianas?

(1.6. O que de facto se conhece sobre a sua identidade)
pág. 31 – A controvérsia pode bem continuar até ao insuportável, mas está fora de questão que, qualquer que seja a diversidade de opiniões noutros assuntos, o facto de Colombo ter nascido em Génova foi aceite pela maioria dos historiadores de todo o mundo que tenham lidado série e profundamente com a questão colombina – tais como Harisse, Vignaud, Morison, Taviani, Ballesteros y Beretta, Manzano y Manzano, Rumeo de Armas, e muitos outros académicos mais recentes.
+ A simples constatação do que o Autor afirma, «o facto de Colombo ter nascido em Génova foi aceite pela maioria dos historiadores …», já demonstra duas incongruências:
primeira – um facto que tem de ser aceite por uma maioria de historiadores mais se aproxima duma hipótese forçada, por falta ou omissão de alternativas suficientemente fortes, do que de uma evidência inquestionável;
segunda – na verdade, o facto de tantos historiadores se terem preocupado em questionar o local de nascimento de CC e o Autor os invocar aqui, indica que não faz sentido o que escreveu anteriormente na pág. 19:
«Dado isto, parece-me um pouco desajustado preocuparmo-nos demasiado com o local de nascimento dum homem do séc. XV para lhe atribuirmos uma ‘nacionalidade’»

pág. 31 – O texto mais importante – que efectivamente, por si só, resolve a questão – é o documento de legação dos seus bens e títulos, no qual Colombo nomeou os seus herdeiros e no qual ele claramente afirma que nasceu em Génova. A autenticidade deste documento foi questionada há algum tempo (quando surgiram as teorias ‘espanholas’), mas tais dúvidas não têm justificação possível, dado que existe confirmação num registo régio conservado no Arquivo Oficial de Simancas.
+ Perante as peremptórias afirmações do Autor, defendendo que não há justificação possível para questionar a autenticidade do documento (Testamento ou Morgadio de 1498), porque existe confirmação régia no Arquivo oficial de Espanha, e perante tantos argumentos, muitos deles até mais recentes que podem consultar-se, demonstrando que quer na forma quer no conteúdo, o Documento de 1498 é mais do que duvidoso, só podemos perguntar ao Autor se chegou a ver o Documento, se estudou o teor do seu conteúdo descritivo, e se avaliou o cumprimento de formalismos, enfim, se pode garantir a todos os seus leitores que não há dúvidas absolutamente nenhumas sobre a sua autenticidade. Porque antes disso, ficaremos sempre com a sensação (já confirmada noutros casos) de que está convicto da autenticidade do Documento só porque ‘alguém’ disse que era autêntico.

pág. 31 – Para além disso, em 1502, quando Colombo tinha caído em (relativa) desgraça na Corte castelhana devido ao falhanço do seu plano e ele tinha sido desapossado das suas honras como Vice Rei da Índia, ele escreveu cartas ao Embaixador genovês e ao Banco de S. Jorge de Génova, nas quais ele demonstrou que ser um emigrante originário da Ligúria.
+ Cartas essas que não fazem parte do restrito grupo de documentos classificados como autógrafos ou como tendo sido ditados ao seu escrivão, nada garantindo então a sua autenticidade.

pág. 31 – As afirmações de um número de cronistas, portugueses, espanhóis e genoveses, também devem tomar-se em consideração. Durante a sua estada em Espanha, o seu biógrafo Bartolomé de las Casas (que diz que ele era ‘da nação genovesa’) não foi o único a evidenciar a sua nacionalidade de origem; (…) Similarmente, o cronista oficial de Génova nos finais do séc. XV, António Gallo, escreveu que “Cristoforo e Bartolomeo Colombo, da nação da Ligúria, filhos do povo, assalariados genoveses … alcançaram grande fama pela Europa” (…)
pág. 32 – João de Barros chama-lhe Cristovam Colom, a forma portuguesa pela qual ele era provavelmente mais comummente conhecido em Portugal, mas seguidamente diz que “segundo a opinião geral … ele era genovês de nascimento”
pág. 33 – Mas em Rui de Pina nós encontramos a afirmação clara de que o seu nome era realmente Colombo e que era italiano.
+ Para cada um dos cronistas invocados já foram apresentadas fortes desconfianças sobre o que escreveram, quando, como e porquê.
Veja-se, p. ex. António Gallo, que enalteceu os irmãos Cristoforo e Bartolomeo Colombo, de humildes pais genoveses, os quais alcançaram grande fama pela Europa.
Gallo também escreveu que conhecia bem a família, mas 'esqueceu-se' do terceiro irmão, Giacomo Colombo, talvez porque o irmão do Almirante Colón se chamava Diego e não Giacomo. Além disso atribuiu grande fama, por um descobrimento no qual não participou, ao praticamente anónimo Bartolomeu.
São cronistas assim, nada imparciais, pouco precisos ou baseados noutros anteriores, que o Autor invoca.
Quanto aos cronistas portugueses, João de Barros não afirma ele próprio que CC era genovês, preferindo pôr as palavras na boca de ‘toda a gente’ e Rui de Pina, num já famoso documento, parece ter deixado em branco um espaço para ser preenchido posteriormente, intervalando as palavras demasiado curtas.
Mas o mais surpreendente nesta invocação de vários cronistas, todos eles difundindo a nacionalidade genovesa de Colombo, é a contradição do Autor com as suas afirmações anteriores (pág. 18 / 19) defendendo que sobre aquela época não se pode falar de nacionalidade de alguém atribuindo-lhe o sentido actual, pois ela dependia do soberano a quem se servia.
Temos então aqui um navegador a efectuar descobertas em nome dos Reis de Castela e ao qual ninguém, em momento algum, chamou ou considerou castelhano.
E, para cúmulo, o cronista oficial português, que deveria conhecer a sua forte ligação com Portugal e reconheceu as suas descobertas ao serviço de Castela, atribuiu-lhe uma nacionalidade inexistente: “ytaliano”!
Quem é que andou a enganar quem?

Carlos Calado
(continua...)