Não existe uma fonte assim totalmente definida porque a Inquisição Vaticana apagou tudo o possível durante 300 anos que operou a sua censura em Portugal -
O Culto do Divino Espírito Santo é uma subcultura religiosa cristã de carácter milenarista, profundamente entrelaçada com a identidade açoriana, com a sua mais ampla diáspora portuguesa e com diversas regiões do Brasil. Alguns estudos analisam a sua singular combinação de misticismo teológico, capelas arquitetonicamente distintas conhecidas como impérios, e rituais comunitários centrados na caridade e na distribuição de alimentos.
O Culto do Espírito Santo, cuja finalidade era um mundo fraterno, onde a atitude coletiva dominante é a da solidariedade social, ultrapassando geralmente o mero conceito de caridade enraizado num conceito de igualdade e fraternidade que parece antecipar conquistas sociais do futuro. Está hoje muito modificado e esterilizado pelo Vaticano que usurpou a festa como católica.
Mas o Culto do Espirito Santo continua mais um Culto do Coração que um culto de devoção a Roma. É um trato direto entre o individuo e o Divino.
O movimento encontra as suas raízes estruturais nas teorias do teólogo italiano do século XII Joaquim de Fiore. Ele formulou a hipótese de três eras históricas: a Era do Pai, a Era do Filho e a futura “Terceira Era do Espírito Santo”, uma época de amor universal, liberdade espiritual e paz sem hierarquias religiosas.
Para traçar estas origens precisas ir até às suas raízes históricas, é necessário analisar uma combinação de manuscritos teológicos medievais, crónicas portuguesas da Idade Moderna e a historiografia crítica do século XX.
A Transição Açoriana: Durante o povoamento dos Açores no século XV, os frades franciscanos e a Ordem de Cristo estabeleceram o culto por todo o arquipélago. O movimento evoluiu para um sistema descentralizado e comunitário, estruturado em torno das Irmandades, ajudando as populações a enfrentar o isolamento vulcânico e os desastres naturais imprevisíveis.
Algumas fontes estão detalhadas abaixo.
1. Joaquim de Fiore e as "Três Eras" (Raízes Teológicas)
- As Fontes Originais: Os tratados em latim do século XII escritos pelo monge e teólogo italiano Joaquim de Fiore, especificamente Expositio in Apocalypsim (Exposição sobre o Apocalipse) e Concordia Novi ac Veteris Testamenti (Harmonia entre o Novo e o Antigo Testamento).
- O que provam: Nestes textos, Joaquim de Fiore delineia a sua teologia milenarista. Ele introduz explicitamente o Status Sancti Spiritus (A Era do Espírito Santo) — uma era utópica futura de amor universal, liberdade espiritual monástica e paz, que substituiria a igreja hierárquica e institucional.
2. A Rainha Santa Isabel e Alenquer (Origens no Continente)
- As Crónicas do Século XVII (A "Narrativa Isabelina"): Para traçar as origens da irmandade de Alenquer (instituída por volta de 1321), os historiadores apoiam-se em registos eclesiásticos antigos que consolidaram as histórias orais medievais. Os textos fundamentais são:
- História Eclesiástica de Lisboa (1642) de D. Rodrigo da Cunha.
- História de S. Domingos (1662 / 1672) de Frei Francisco Brandão.
- Crónica da Ordem dos Frades Menores em Portugal (1656) de Frei Manuel da Esperança.
- O que provam: Estas crónicas detalham como a Rainha Santa Isabel e o Rei D. Dinis estabeleceram a Irmandade e a Igreja do Espírito Santo em Alenquer, introduzindo a coroação de um plebeu como "Imperador" e a distribuição do Bodo (refeições caritativas).
- Evidência Arquivística Mais Antiga: Uma carta régia datada de 18 de setembro de 1279, emitida pela Rainha Regente D. Beatriz, menciona oficialmente a Albergaria do Espírito Santo em Alenquer. Isto confirma que já existia uma rede de caridade laica dedicada ao Espírito Santo no continente antes de os Açores terem sido sequer mapeados.
3. Tomar e a Ordem de Cristo (Centro Administrativo)
- As Fontes Originais: Os arquivos administrativos da Ordem de Cristo (sediada no Convento de Cristo, em Tomar) e as Constituições Sinodais da Diocese de Angra (1559).
- O que provam: Quando os Açores foram descobertos, foram colocados sob a jurisdição espiritual e temporal da Ordem de Cristo, liderada pelo Infante D. Henrique. A Ordem recorreu aos frades franciscanos para colonizar as ilhas. Os frades utilizaram os modelos das irmandades do Espírito Santo praticados em centros continentais como Tomar e Lisboa para estabelecer a governação comunitária nas ilhas.
4. Historiografia Crítica (Como tudo se interliga)
Se procura sínteses modernas e revistas por pares destes documentos originais, consulte estes estudos históricos e antropológicos fundamentais do século XX:
- Jaime Cortesão, Os Descobrimentos Portugueses: Cortesão foi o historiador português pioneiro que associou os manuscritos teológicos de Joaquim de Fiore aos franciscanos espirituais que chegaram a Portugal e, mais tarde, navegaram para os Açores.
- João Leal, As Festas do Espírito Santo nos Açores: Um Estudo de Antropologia Social (1994): Leal desconstroi sistematicamente o que designa por "Narrativa Isabelina", mapeando exatamente como um costume medieval em declínio no continente foi exportado com sucesso, adaptado e preservado pelos ilhéus açorianos
Para o filósofo e ensaísta português Agostinho da Silva (1906–1994), o Culto do Divino Espírito Santo não era apenas uma festividade etnográfica ou folclórica, mas sim a espinha dorsal da identidade profunda de Portugal e do Brasil, além de ser a chave para o futuro utópico da humanidade. O pensador interpretava o culto através de uma lente filosófica, mística e altamente política, transformando uma tradição popular num projeto de civilização global.
O pensamento de Agostinho da Silva sobre o Espírito Santo articula-se em três eixos fundamentais:1. A Terceira Idade do Mundo (Joaquim de Fiore
Agostinho da Silva adota e atualiza a teologia milenarista do monge calabrês do século XII, Joaquim de Fiore. Segundo esta visão, a história divide-se em três grandes eras:
- A Idade do Pai: Caracterizada pela Lei, pelo Antigo Testamento e pelo temor a Deus.
- A Idade do Filho: Caracterizada pela Graça, pela Igreja institucional, pelo dogma e pela obediência.
- A Idade do Espírito Santo: O tempo que estaria por vir, marcado pela liberdade absoluta, pelo amor universal e pelo fim das hierarquias.
Para Agostinho, enquanto o continente europeu se fechou na "Idade do Filho" (focada na razão, na ciência fria, no capitalismo e no controle social), o mundo de língua portuguesa — através dos Açores e do Brasil — manteve viva a promessa da "Idade do Espírito Santo" por meio das suas festas populares.
2. A Filosofia dos Três Pilares da Festa
Analisando a estrutura ritual das Festas do Espírito Santo nos Açores e no Brasil, Agostinho da Silva extraía lições profundas a partir de três símbolos centrais:
- A Criança Coroada: Nas festas, é comum coroar uma criança como "Imperador". Para o filósofo, isto simboliza que o verdadeiro poder e sabedoria não pertencem aos reis, políticos ou generais, mas sim à infância, à pureza, à criatividade e à inocência. O futuro ideal seria um mundo governado pelo "brincar" criativo e não pelo trabalho alienante.
- O Bodo (Distribuição de Alimento): A partilha gratuita de pão, carne e vinho para toda a comunidade, sem distinção de classes sociais, representava a abolição da miséria e da economia de mercado. Numa sociedade sob a égide do Espírito Santo, os bens seriam distribuídos por amor e abundância, e não por comércio ou mérito.
- A Libertação dos Presos: Tradicionalmente, o Imperador do Espírito Santo tinha o poder de indultar e libertar presos. Agostinho via nisto o anúncio de um tempo onde a punição e o crime desapareceriam, dando lugar a uma pedagogia da liberdade e da reintegração total do ser humano.
3. O "Quinto Império" e o Papel do Brasil
Agostinho da Silva funde o Culto do Espírito Santo com o mito sebastianista do Quinto Império. Ao contrário dos impérios do passado (Romano, Britânico, etc.), que foram construídos através das armas, do domínio territorial e da opressão, o Quinto Império proposto por Agostinho seria um império puramente espiritual, cultural e fraterno.
Tendo vivido 23 anos no Brasil, ele acreditava que o território brasileiro era o laboratório perfeito para a concretização desta utopia. A capacidade de miscigenação, a alegria popular e a enorme força da Festa do Divino em terras brasileiras eram sinais claros de que o Brasil lideraria a transição para esta nova era da humanidade — um mundo onde a criatividade substituiria o trabalho obrigatório e a fraternidade anularia as fronteiras.
Textos e Leituras Recomendadas
Para aprofundar a perspetiva de Agostinho da Silva, consulte os seguintes ensaios e análises académicas:
- O Pensamento Direto do Autor: O livro Dispersos e as suas célebres entrevistas televisivas (como o programa Conversas Vadias) detalham a sua visão mística de Portugal e do Brasil.
- Análise da Identidade Nacional: O ensaio académico de José Eduardo Franco, Nação e império: Agostinho da Silva e as Festas do Espírito Santo, faz um excelente mapeamento sobre como o providencialismo medieval moldou as teses do filósofo.
- A Leitura Política do Espírito Santo: Para entender as implicações sociais e a crítica à sociedade de consumo feita pelo autor, leia A Leitura Sócio-Política do Espírito Santo em Agostinho da Silva.
- A Utopia e a Escatologia: O capítulo de livro de Samuel Dimas, A idade do espírito em Agostinho da Silva, disseca a transição do pensamento grego/cristão para a imanência utópica proposta por Agostinho
Havia aqui um estudo por - Carlos Rodarte Veloso. O Culto do Espírito Santo em Portugal. História e Iconografia. Disponível neste site mas já não se encontra: <http://www.conventocristo.gov.pt/data/Documentos/Culto%20do%20Espirito%20Santo%20em%20Portugal.pdf
Também Luis de Camões, o Padre António Vieira e Fernando Pessoa nadaram por esta corrente porque o Culto do Espirito Santo continua mais um Culto do Coração que um culto de devoção. É um trato direto entre o individuo e o Divino contornando o papa e as instituições que controlam o pensamento.
https://roteirodesazores.com/festa/festa-do-divino-espirito-santo-da-prainha-sao-roque-do-pico/
Cada um vai até lá por seu próprio coração porque todo o mundo sabe dentro de si que o Divino é Amor.

















